Expresso

O que falta para tornar a fusão nuclear uma fonte de energia

Cesar Gaglioni

17 de setembro de 2022(atualizado 28/12/2023 às 22h51)

Técnica é diferente da fissão, usada atualmente, e se viabilizada pode produzir energia limpa com baixo custo e sem lixo radioativo. Avanços em pesquisas mostram que principais desafios agora são de engenharia

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FOTO: DIVULGAÇÃO/GOVERNO DA COREIA

Reator de fusão nuclear na Coreia do Sul

Reator de fusão nuclear na Coreia do Sul

Cientistas da Coreia do Sul conseguiram manter uma reação de fusão nuclear estável por 30 segundos no dia 9 de setembro. As temperaturas atingidas foram de 100 milhões de graus celsius – o equivalente a sete vezes o calor produzido pelo Sol.

Embora pareça curta, a marca representa um avanço significativo na busca por um reator nuclear de fusão, que poderia trazer energia 100% limpa no futuro a custos baixíssimos, ajudando a frear a crise climática. Diferentemente das técnicas de fissão nuclear – já usadas há décadas na produção de energia – a fusão nuclear tem pouquíssimos riscos e não resulta em lixo radioativo. A operacionalização do método, porém, ainda é repleta de entraves, dadas as temperaturas e os equipamentos necessários.

Já no dia 13 de dezembro, cientistas americanos doLaboratório Lawrence Livermore anunciaram que conseguiram atingir uma reação similar.

Neste texto, o Nexo explica o que é a fusão nuclear, como ela funciona, quais as dificuldades de implementação e como estão os estudos na área.

Um pequeno glossário

A física nuclear é uma área de estudos complexa e cheia de nuances. Por isso, antes da explicação, o Nexo apresenta um pequeno glossário com alguns dos termos para facilitar o entendimento do texto.

  • Elétron : Partícula subatômica com carga elétrica negativa
  • Próton : Partícula subatômica com carga elétrica positiva. Também é parte da composição do núcleo do átomo
  • Nêutron : Partícula subatômica com carga elétrica neutra. Junto dos prótons, compõem o núcleo atômico
  • Íon : Átomos que perderam ou ganharam elétrons
  • Plasma : É o quarto estado da matéria. Ocorre quando uma substância no estado gasoso é aquecida a altas temperaturas e se torna um íon. Raios e a superfície do sol são exemplos de plasma
  • Tokamak : É o nome do reator no qual ocorre a fusão nuclear. Ele é uma câmera, projetada em formato de rosca, repleta de eletroímãs (ímãs que funcionam a partir de indução eletromagnética)

O que é a fusão nuclear

A energia nuclear já é usada há décadas no mundo todo. Usinas como a de Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, trabalham a partir da fissão (quebra) de átomos de metais pesados.

Isso gera grandes quantidades de energia – mais do que usinas hidrelétricas ou a queima de combustíveis fósseis. Mas, ao mesmo tempo, produz lixo radioativo que, se entrar em contato direto com seres vivos, pode causar grandes tragédias, como o desastre de Chernobyl, na atual Ucrânia, nos anos 1980; e o vazamento da usina de Fukushima, no Japão, em 2011.

A fissão nuclear – que é usada também em bombas atômicas – quebra um átomo em dois. Esses dois, por sua vez, se quebram em outros dois; que se quebram em outros dois e assim por diante em uma reação em cadeia.

Já a fusão nuclear – como o próprio nome diz – consiste em unir dois ou mais átomos distintos para formar um terceiro. A diferença na massa dos elementos combinados gera a liberação de energia.

O processo de fusão nuclear acontece todos os dias no Sol, a partir da transformação de átomos de hidrogênio em átomos de hélio. É a partir dessas reações que a estrela emite luz e calor, essenciais para a vida na Terra.

O hidrogênio, gás inofensivo e abundante na atmosfera terrestre, é fácil de ser fundido. Por isso, a ideia de construir um reator nuclear de fusão consiste em imitar, em menor escala, as reações que já acontecem no Sol, a fim de aproveitar a energia resultante das reações para alimentar redes elétricas e maquinários de diversos tipos e tamanhos.

A fusão nuclear tem dois combustíveis:

  • Deutério : Gás derivado do hidrogênio, pode ser extraído da água do mar
  • Trítio : Metal derivado do lítio, abundante na Terra, usado para construção de baterias eletrônicas

A combinação do deutério com o trítio consegue gerar grandes quantidades de energia a um custo baixo, sem produzir resíduos tóxicos. Quando os átomos se fundem, o resultado final é vapor , que, por sua vez, é direcionado para turbinas geradoras.

A Agência Internacional de Energia Atômica, consórcio formado por departamentos científicos de governos do mundo todo, estima que 3,8 litros de água usados no processo de fusão conseguem produzir o equivalente à energia obtida com a queima de 300 barris de petróleo – que emite uma série de poluentes que contribuem para a mudança climática.

Segundo a instituição, apenas algumas gramas de deutério e trítio são capazes de gerar a energia que uma pessoa gasta ao longo de 60 anos, considerando os padrões médios de consumo de eletricidade ao redor do mundo.

Por que a fusão nuclear ainda não é usada

Apesar da eficiência e do potencial, a fusão nuclear ainda não é usada comercialmente pelos desafios que ela impõe.

O primeiro deles: as temperaturas exigidas para manter a reação são altíssimas, de forma que, muitas vezes, a energia exigida para atingi-las é maior do que a energia produzida pela fusão. Nesse caso, há deficit de energia, e o processo não vale a pena.

O segundo tem relação direta com o primeiro: controlar o plasma, o estado da matéria necessário para a fusão, não é tarefa fácil. Os reatores Tokamak funcionam a partir de grandes ímãs que tentam prender a energia dentro da câmera sem deixar que ela encoste nas paredes do dispositivo – o que causaria o fim da reação e grandes danos para o equipamento. Conseguir controlar o plasma é a chave para o reator gerar mais energia do que consome.

O terceiro, por fim, rege os outros dois: desenvolver as tecnologias e os estudos necessários para a fusão requer grandes quantidades de dinheiro e colaboração entre os setores público e privado de diversos países.

O Iter – sigla em inglês para Reator Termonuclear Experimental Internacional – é um dos principais projetos na área. Ele é formado por 35 países (União Europeia, China, Índia, Coreia do Sul, Rússia, Japão e Estados Unidos) e deve custar US$ 40 bilhões (R$ 210 bilhões em setembro de 2022) até 2025, quando a primeira reação está programada para acontecer. A expectativa é de que ele esteja 100% operacional em 2035.

“Grandes quantidades de cientistas e engenheiros são necessários para trabalhar nessas máquinas e conduzir os experimentos exigidos para conseguirmos testar o conceito”, afirmou o físico Mark Dogson, da Universidade de Queensland, na Austrália, em texto publicado no site do Fórum Econômico Mundial em 2020. “A colaboração internacional e multisetorial é necessária.”

Quais os avanços mais recentes

O estudo feito na Coreia do Sul representa um avanço significativo para a busca pela energia de fusão nuclear. O experimento foi feito pelo grupo de pesquisas Kstar, financiado pelo Ministério da Ciência sul-coreano.

Com ele, ficou comprovado mais uma vez que conquistar uma fusão bem sucedida agora só depende de esforços de engenharia para manter a reação acontecendo por mais tempo e distribuir a energia gerada.

“Se é possível manter uma fusão ativa por cinco segundos, é possível mantê-la por cinco minutos e depois por cinco horas conforme a escalabilidade promovida pelas novas tecnologias”, disse ao site do Fórum Econômico Mundial o físico Tony Donne, do grupo de pesquisas Eurofusion, consórcio de 30 universidades europeias.

A reação obtida pelo grupo Kstar pode ser vista no vídeo abaixo:

Os 30 segundos conquistados pelo grupo coreano só ficam atrás dos 101 segundos obtidos pela Academia Chinesa de Ciências em junho de 2021. Ambos mostram que os estudos e equipamentos desenvolvidos para a área estão no caminho certo.

Tanto os estudos chineses, quanto os coreanos mostram que atingir uma reação estável é possível, faltando apenas aprimorar os equipamentos e estruturas necessárias.

O anúncio americano feito no dia 13 de dezembro foi feito a partir do disparo de 192 lasers de alta potência em átomos de hidrogênio e deutério, conseguindo gerar mais energia do que consumiu.

Os possíveis impactos

No vídeo abaixo, o físico Vinícius Njaim Duarte explica por que a fusão nuclear é importante para o futuro ambiental e energético do planeta.

“Acho que não existe nenhum exagero em falar que seria um divisor de águas na civilização. Se for provada a viabilidade comercial desse conceito, desses reatores, não existiria mais necessidade, ou diminuiria consideravelmente a necessidade, de combustíveis fósseis e mitigaria em muito a emissão de gases de efeito estufa, justamente no momento em que o mundo vem discutindo como conter os efeitos causados pela humanidade nas mudanças climáticas”, disse ao Nexo Políticas Públicas em maio de 2021.

O pesquisador faz parte do Brazil LAB do Princeton Institute for International and Regional Studies, um dos parceiros do Nexo Políticas Públicas .

Para o físico nuclear Gustavo Canal, da Universidade de São Paulo, as pesquisas estão no caminho certo e podem ser de fato revolucionárias. O problema é o tempo necessário para garantir a resistência dos materiais usados nos reatores.

“Durante uma reação, o valor do bombardeamento sobe exorbitantemente, fica uma ordem de grandeza acima do que os materiais suportam”, afirmou ao jornal Folha de S.Paulo em novembro de 2021.

E o Brasil?

O Brasil chegou a ser convidado para participar do consórcio do Iter em 2009, mas acabou recusando a proposta pelo valor. A organização queria que o país pagasse 10% do preço total do reator, já que seriam usados condutores feitos com nióbio, metal abundante no território nacional.

Três anos depois, em 2012, o país assinou um acordo de cooperação com a Euratom (Comunidade Europeia de Energia Atômica), que está em vigor. Ele prevê a concessão de dados de pesquisas e participação de cientistas brasileiros nas pesquisas internacionais do grupo.

Paralelamente, o Brasil tem planos para construir – até 2024 – o Laboratório de Fusão Nuclear, parte do Reator Multipropósito Brasileiro, numa área cedida pela Marinha no município de Iperó, interior de São Paulo.

Além disso, o Brasil é o único país do Hemisfério Sul que possui equipamentos para pesquisas em fusão nuclear, com três equipamentos: um tokamak de pequeno porte que está sendo modernizado na Universidade Federal do Espírito Santo; um tokamak experimental, instalado no Laboratório Associado de Plasmas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais; e um do Instituto de Física da USP (Universidade de São Paulo). Todos estão em fase de pesquisa e experimentação.

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