Expresso

A rede que busca impulsionar grupos de coletores de sementes

Mariana Vick

29 de julho de 2023(atualizado 28/12/2023 às 22h04)

Iniciativa com cerca de 1.200 integrantes quer dar apoio a trabalho feito por comunidades tradicionais. Atividade tenta estimular a restauração florestal no Brasil 

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FOTO: RODRIGO CARVALHO GONÇALVES/REDÁRIO/ISA – 20.ABR.2023

Cinco pessoas seguram sementes de diferentes cores nas mãos. Não se veem os rostos das pessoas.

Mãos expõem sementes colhidas pela Rede Portal da Amazônia em Alta Floresta (MT). Em sentido horário a partir da semente vermelha e preta: olho de cabra, chuva de ouro, cedro rosa, orelinha e amendoim bravo

Coletores de sementes de diversas partes do Brasil se reuniram para criar em julhoo Redário , uma iniciativa de 24 redes de trabalhadores que busca dar apoio a esse tipo de produção. Cerca de 1.200 pessoas estão envolvidas no projeto. Mais de 60% são mulheres.

A iniciativa é considerada uma alternativa para a restauração de florestas. A prática é uma das mais valorizadas para combater as atuais crises climática e de biodiversidade , agravadas pelo desmatamento. Pode também contribuir para a regeneração de biomas importantes e degradados do Brasil, como a Amazônia, o Cerrado e a Mata Atlântica.

Neste texto, o Nexo explica o que fazem os grupos de coletores de sementes, o que eles já alcançaram no Brasil e o que buscam com a criação da rede. Mostra também como a atuação dessas pessoas se conecta com as metas de reflorestamento do Brasil e quais são os desafios para o desenvolvimento da iniciativa.

O que fazem os coletores

Coletores de sementes são pessoas que trabalham desde a coleta e a preparação de sementes até a restauração de áreas. Grande parte dos grupos que fazem parte do Redário está em organizações de base comunitária. Indígenas, quilombolas, geraizeiros (habitantes tradicionais do norte de Minas Gerais), comunidades tradicionais e pequenos agricultores estão entre eles.

A coleta é baseada no conhecimento tradicional dessas pessoas. Grupos como indígenas e quilombolas costumam viver dentro de áreas de vegetação nativa e mantêm modos de vida que convivem com a floresta e os rios. Produzir sementes pode complementar sua renda, valorizar o conhecimento e manter as comunidades no território.

Grupos como a Rede Sementes do Xingu, formada por comunidades de territórios das bacias dos rios Xingu, Araguaia e Teles Pires, existiam antes do Redário. Apenas essa rede reúne mais de 500 coletores de sementes. Desde 2007, eles plantaram mais de 20 milhões de árvores e recuperaram mais de 60 km² de floresta.

R$ 4,4 milhões

foram revertidos para as comunidades da Rede Sementes do Xingu desde 2007

Para fazer esse trabalho, os coletores usam uma técnica chamada muvuca. Trata-se da mistura de sementes de diversas espécies para serem plantadas de uma vez só, de acordo com o ambiente que se quer restaurar. O plantio por essa forma é considerado mais rápido, prático e econômico que o plantio de mudas, por exemplo.

O que buscam com a criação da rede

O Redário nasceu da necessidade dos grupos de coletores de atuar em escala maior do que cada um havia alcançado individualmente. O foco da iniciativa é apoiar a produção de sementes nativas e impulsionar esse mercado. Outro objetivo é desenvolver a cadeia de restauração no Brasil, viabilizando as melhores espécies para cada ecossistema.

A rede busca apoiar os coletores a partir de iniciativas de capacitação, apoio técnico, gerencial, logístico, comunicacional, comercial e jurídico. Ao mesmo tempo que os fortalece, é fonte para produtores rurais em busca de projetos de restauração ecológica. Funciona como via de mão dupla, unindo oferta e demanda.

FOTO: WEBERT DA CRUZ ELIAS/REDÁRIO/ISA – 04.JUN.2023

Diversas pessoas com camisetas vermelhas posam para foto durante o dia, em frente a uma casa indígena.

Equipe do Redário durante segundo Encontro na Aldeia Multiétnica, em Alto do Paraíso de Goiás (GO)

O trabalho é colaborativo. Para acelerar o desenvolvimento dos coletores novos, o Redário conta com a experiência dos antigos. Com a união, o grupo diz que pretende formar uma cadeia de restauração em larga escala, pautada pelo comércio justo, ampla variabilidade genética e rastreabilidade dos produtos.

A iniciativa tem origem no trabalho de redes como a do Xingu. Os primeiros passos da organização aconteceram entre 2017 e 2018, quando alguns grupos fizeram vendas conjuntas de sementes, segundo Eduardo Malta, especialista em restauração ecológica do ISA (Instituto Socioambiental). Apenas agora, no entanto, o grupo ficou robusto o suficiente para formar uma nova rede.

Qual o impacto para a restauração

Os grupos que fazem parte do Redário produziram até agora sementes de 170 espécies nativas destinadas a 47 projetos de restauração. Por meio deles, ajudaram a regenerar 600 hectares (ou 6 km²) de floresta. A área equivale à de um bairro de São Paulo, como Perdizes, Belém ou Jardim Paulista.

Além de levantar mais árvores (ou outros tipos de vegetação), a restauração tem impacto sobre o restante da biodiversidade local e sobre a oferta de água. Em vídeo para o Instituto Socioambiental, uma mulher contou que o córrego de seu território parou de secar após o plantio das sementes coletadas. A diversidade de espécies típica da muvuca também traz resiliência para a nova paisagem.

FOTO: UESLEI MARCELINO/REUTERS – 19.08.2019

Tamanduá recuperado é solto na floresta amazônica após receber atendimento veterinário, próximo a Porto Velho, Rondônia, Brasil.

Tamanduá recuperado é solto na floresta amazônica após receber atendimento veterinário, próximo a Porto Velho, Rondônia, Brasil.

Iniciativas como essa se alinham com as metas de restauração do Brasil. Em 2017, o país se comprometeu a restaurar 12,5 milhões de hectares (ou 125 km²) de áreas desmatadas até 2030 no contexto do combate à mudança climática. A meta está descrita no chamado Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa.

A oferta de sementes no Brasil está aquém desses objetivos. “Para bater a meta, precisamos construir a base da cadeira de restauração, que hoje é informal, desarticulada e fragmentada, com vários vazios no Brasil”, disse Malta ao Nexo . Mudar esse cenário é um dos objetivos do Redário, segundo ele.

Quais são os desafios

Para Malta, o Redário deve passar por alguns desafios para cumprir seus objetivos. A norma brasileira para produção de sementes nativas dificulta a regularização dos coletores, segundo ele. Além disso, a demanda de produtores rurais por sementes “fica no escuro”, e ainda é difícil unir demanda e oferta.

Também é preciso disseminar o conhecimento sobre a muvuca. “A semeadura direta [outro nome para a técnica] é pouco usada e ninguém conhece. Isso gera pouca demanda por sementes [nas propriedades rurais que buscam projetos de restauração]”, afirmou ao Nexo .

FOTO: WEBERT DA CRUZ ELIAS/REDÁRIO/ISA – 04.JUN.2023

Duas pessoas, vistas de costas, expõem sementes numa mesa, à noite.

Sementes expostas durante feira em Alto Paraíso de Goiás (GO)

Outro gargalo está nos governos, que, segundo Malta, não produzem indicadores adequados para avaliar os projetos de restauração em curso nas propriedades. Por causa disso, a qualidade desse trabalho ainda é baixa no Brasil. “Os fiscais dos governos verificam se as atividades [de recuperação] ocorreram, mas não se elas resultaram numa nova floresta de fato.”

Para ampliar seu trabalho, o Redário mantém contato com instituições de pesquisa, terceiro setor e órgãos estaduais e federais. Entre maio e junho, representantes desses setores se reuniram com coletores num evento em Alto Paraíso de Goiás (GO). Os grupos discutiram a possibilidade de reconstruir políticas de restauração no novo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, após os anos de Jair Bolsonaro.

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