Qual o quadro da saúde mental de crianças e adolescentes do Brasil
Isadora Rupp
23 de setembro de 2024(atualizado 24/09/2024 às 21h07)Ascensão de transtornos e probabilidade de suicídio é realidade a ser enfrentada por serviços de saúde, escolas e família. Tabu sobre o tema ainda impossibilita tratamento adequado
Temas
Compartilhe
Uso excessivo de tablets e celulares por crianças e adolescentes afeta a saúde mental
A Organização Mundial da Saúde estima que 14% das crianças e adolescentes entre 10 e 19 anos no mundo têm algum tipo de transtorno mental.
No Brasil, pesquisas recentes mostram que os registros de ansiedade nessa faixa etária já superam os de jovens e adultos, e que há maior probabilidade de adolescentes cometerem suicídio.
Este texto do Nexo, parte de uma série sobre sobre saúde mental e escolas, mostra os motivos da piora dos índices e os caminhos para enfrentar a questão.
Estudos acadêmicos e de entidades ligadas à infância apontam que o período da infância e da adolescência é crucial para o desenvolvimento cognitivo, social e emocional do indivíduo, e que ele gera reflexos que se estendem para a vida toda. Por isso, a atenção à saúde mental nessa fase da vida é primordial.
A mais recente Pesquisa Nacional de Saúde Escolar, de 2019, revelou que 31,4% dos alunos entrevistados disseram se sentir tristes com frequência, e que 17,7% avaliaram negativamente a sua saúde mental.
Entre 2011 e 2022, a taxa de suicídios na faixa etária entre 10 e 24 anos cresceu 6%, e a de autolesões, 29%, segundo análise realizada pelo Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde da Fundação Oswaldo Cruz Bahia, com base em dados do Ministério da Saúde.
Os números mostram que esses percentuais entre crianças e adolescentes superam os registrados na população geral, cujas taxas de suicídio e autolesão cresceram, respectivamente, 3,7% e 21% no mesmo período.
3.200
crianças entre 5 e 14 anos tiraram a própria vida no Brasil de 2000 a 2021, segundo registros do Ministério da Saúde
A probabilidade de adolescentes cometerem suicídio também cresceu, segundo a pesquisa “Adolescência e Suicídio: um Problema de Saúde Pública”, realizada pela Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz. Os pesquisadores detectaram que, de 2000 a 2022, a diferença entre a probabilidade de um adulto e a de uma criança/adolescente cometer suicídio aumentou ano a ano.
Em 2022, a tendência se reverteu de vez, e a chance de uma pessoa entre 10 e 19 anos provocar a própria morte foi 21% maior do que entre jovens adultos.
A ansiedade, que pode se tornar uma doença quando é excessiva e persistente, é outro problema que preocupa. Análise realizada pelo jornal Folha de S.Paulo com dados da Rede de Atenção Psicossocial do SUS mostra que, pela primeira vez na história, os registros de ansiedade entre crianças e jovens superam os de adultos.
O levantamento, que considerou dados entre 2013 e 2023, período com os números disponíveis, mostrou que a taxa de crianças de 10 a 14 anos com ansiedade é de 125,8 a cada 100 mil. Entre adolescentes, salta para 157 a cada 100 mil. Em pessoas com mais de 20 anos, o número cai para 112 a cada 100 mil.
De acordo com os pesquisadores Raphael Mendonça Guimarães, Nilson do Rosário Costa e Marcelo Rasga Moreira, organizadores da pesquisa “Adolescência e suicídio: um problema de saúde pública”, da Fiocruz, a pandemia de covid-19 teve um papel de grande influência, pela mudança causada em toda a dinâmica social.
“O suicídio, como marcador de adversidade social, reflete rupturas nos contratos sociais e desconexões comunitárias, necessitando de uma abordagem intersetorial para prevenção e promoção da saúde mental”, diz o estudo.
Segundo o médico psiquiatra Rodrigo Bressan, professor da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), do King’s College, de Londres, e presidente do Instituto Ame Sua Mente, a piora da saúde mental entre crianças e adolescentes é multicausal, mas o uso excessivo de dispositivos eletrônicos, tempo demais em telas, sobretudo em redes sociais, tem uma forte influência no adoecimento.
“Mídias sociais têm consumido um tempo absurdo dos jovens. Já recebi pacientes que ficam de quatro a cinco horas só no TikTok [rede social chinesa popular entre adolescentes], e após à meia-noite, o que gera uma repercussão grande no sono e dificuldade de concentração”, disse Bressan ao Nexo.
Criança jogando em celular
De acordo com o psiquiatra, nosso cérebro não está preparado para a quantidade de estímulos proporcionados por horas e horas em frente de telas e, por isso, usar celular em sala de aula como ferramenta é uma equação que não fecha.
“Não tem como competir com um estímulo tão potente. Redes sociais são altamente aditivas. Outro indício claro disso agora são as bets”, afirmou Bressan. O médico refere-se ao crescimento estrondoso do mercado de apostas esportivas online no Brasil, que já é considerado por pesquisadores da área de saúde mental como um problema de saúde pública que precisará ser enfrentado no país.
A tendência crescente de ansiedade, depressão e suicídio entre crianças e adolescentes não é um fenômeno apenas brasileiro, mas mundial. Para o psicólogo americano Peter Grey, essa epidemia está relacionada com a redução de oportunidades para crianças e adolescentes brincarem sem a supervisão de adultos.
A falta de independência – como brincar na rua com outras crianças e sair sozinho para atividades como ir a algum estabelecimento comercial próximo, argumenta Grey, deixou de ser parte da infância e da adolescência e reduziu a capacidade de resiliência e de independência. Segundo Grey, essa seria uma das explicações para o agravamento da saúde mental de crianças e jovens.
No Brasil, a saúde mental é abordada no SUS (Sistema Único de Saúde), por meio da Rede de Atenção Psicossocial. Em 2002, o Ministério da Saúde criou os Caps (Centro de Atenção Psicossocial), que são espaços de acolhimento para pacientes com transtornos mentais.
Uma das modalidades do Caps, o Caps i, atende crianças e adolescentes que apresentam intenso sofrimento psíquico decorrente de problemas mentais graves e persistentes, e é indicado para municípios ou regiões com população acima de 70 mil habitantes.
Além de possíveis carências estruturais dos serviços de saúde mental disponíveis na rede pública, o preconceito ainda é uma barreira, segundo o psiquiatra Rodrigo Bressan.
Pesquisas conduzidas pelo Instituto Ame Sua Mente mostram que parte das famílias, mesmo orientadas pela escola, não iniciam ou abandonam o tratamento de seus filhos por estigmas em relação à saúde mental.
US$ 21,5 dólares
é o retorno a cada US$ 1 investido para a prevenção de ansiedade, depressão e suicídio nas escolas, segundo estudo de 2021 da Unicef, órgão da ONU para a infância
Outro estudo, desenvolvido com crianças e adolescentes de 6 a 16 anos com 2.000 famílias em quatro regiões brasileiras, relatou que, entre aquelas com uma criança ou adolescente com transtornos psiquiátricos, apenas 19,8% havia utilizado serviços de saúde mental nos 12 meses que antecederam a pesquisa.
Indisponibilidade dos serviços, baixo nível educacional da mãe ou cuidador e morar em regiões menos desenvolvidas socialmente foram outras barreiras de acesso detectadas pela pesquisa.
“O papel da família é fundamental, e os pais precisam ser educados sobre essas questões. Aprender a conversar com a escola, e vice-versa. Por isso, uma das coisas mais eficazes é o letramento em saúde mental com professores, para que consigam detectar o problema, ajudar os pais e encaminhar adequadamente ao tratamento”, disse o psiquiatra Rodrigo Bressan.
O URL do post não é válido.NEWSLETTER GRATUITA
Enviada à noite de segunda a sexta-feira com os fatos mais importantes do dia
Gráficos
O melhor em dados e gráficos selecionados por nosso time de infografia para você
Navegue por temas