Como as escolas brasileiras lidam com o avanço da violência
Isadora Rupp
01 de outubro de 2024(atualizado 01/10/2024 às 17h16)Aumento do número de atentados e casos traumáticos relacionados ao bullying desafiaram instituições e criaram a necessidade de ações para preservar a saúde mental de crianças e adolescentes
Ilustração simula uma roda de conversas sem pessoas
Em 2023, casos de atentados violentos à escolas e creches brasileiras, que deixaram mortos adolescentes, crianças e professores, chocaram o país.
Foi o ápice de um fenômeno que, até o início dos anos 2000 era praticamente inexistente no Brasil, mas cresceu ano a ano até tomar uma dimensão inédita, o que pressionou o Estado a criar medidas para responder a essa mudança.
Neste texto, parte de uma série sobre saúde mental e escolas, o Nexo traz quais são as hipóteses para o agravamento da violência na comunidade escolar e mostra iniciativas implementadas para lidar com o problema.
Segundo o relatório “O extremismo de direita entre adolescentes e jovens no Brasil: ataques às escolas e alternativas para ação governamental”, os eventos de violência em escolas no Brasil começaram no início dos anos 2000. Antes disso, não há ocorrência de ataques desta natureza.
Homenagem para crianças mortas em ataque na Creche Bom Pastor, em Blumenau (SC)
Entre 2000 e 2023, pelo menos 35 pessoas foram mortas nestas circunstâncias. De acordo com o estudo, a opção por invadir escolas não é aleatória: o espaço é escolhido por ser o principal local de socialização e aprendizagem.
O levantamento mostra que o ápice de casos ocorreu entre o segundo semestre de 2022 e o ano de 2023, quando ocorreram nove casos, quatro em apenas 15 dias.
Histórico de ataques no Brasil
Salvador, outubro de 2002
Um estudante de 17 anos matou uma colega e feriu outros estudantes no Colégio Sigma, uma escola privada no bairro de Piatã. Armado, ele realizou os disparos dentro de sala de aula, encaminhou-se para a quadra de esportes da escola e ameaçou tirar a própria vida. Ele foi detido. A arma utilizada era do pai, perito da Polícia Civil. É o primeiro atentado violento registrado no Brasil em uma escola com o uso de arma de fogo e registro de mortes.
Rio de Janeiro, abril de 2011
O massacre de Realengo deixou 12 mortos na escola municipal Tasso da Silveira. O autor, Wellington Menezes de Oliveira, então com 23 anos, abriu fogo contra alunos. Ele era ex-aluno da escola e se suicidou em seguida. Embora não tenha anunciado o crime nas redes sociais, investigações mostraram que as armas e conhecimento sobre tiro foram obtidos por eles por meio de fóruns online.
Suzano (SP), março de 2019
Guilherme Taucci Monteiro e Luiz Henrique de Castro mataram sete pessoas na Escola Estadual Raul Brasil. Ambos eram ex-alunos do colégio, usaram arma de fogo, machadinhas e uma besta (arma medieval que dispara flechas). Os dois se mataram. Os jovens eram frequentadores de chans e participavam de grupos pró-armamento em redes como Facebook.
Saudades (SC), maio de 2021
Fabiano Kipper Mai, de 18 anos, invadiu a escola infantil Pró-Infância Aquarela e matou três bebês e duas professoras com um facão. Ele tentou se suicidar e ficou internado. Atualmente está preso e aguarda julgamento. Investigações apontaram que Mai também frequentava fóruns cujo assunto principal é a disseminação de discurso de ódio, e que esse universo o teria incentivado a cometer o crime.
Aracruz (ES), novembro de 2022
Um adolescente de 16 anos cometeu um atentado com arma de fogo em duas escolas na cidade de Aracruz, região metropolitana de Vitória. Três professoras e uma estudante foram mortas, e outras 13 pessoas ficaram feridas. Segundo as investigações, o atentado foi planejado por dois anos, e as duas armas usadas eram do pai, policial militar. O adolescente foi julgado e cumpre internação por três anos no Instituto de Atendimento Socioeducativo do Espírito Santo.
São Paulo, março de 2023
Um estudante de 13 anos, aluno do 8° ano do ensino fundamental, invadiu uma sala de aula na Escola Estadual Thomazia Montoro, no bairro Vila Sônia, em São Paulo, e matou com golpes de faca a professora Elizabeth Tenreiro, de 71 anos. Outras quatro pessoas ficaram feridas. O autor usava uma siege mask, uma máscara preta de caveira, símbolo da extrema direita mundial e forma de identificação de simpatizantes do neonazismo, e publicou em um perfil no Twitter que faria o atentado.
Blumenau (SC), abril de 2023
Um homem de 25 anos invadiu uma creche privada na cidade catarinense de Blumenau e matou quatro crianças que tinham entre 4 e 7 anos. Outras cinco foram feridas. O autor se entregou à polícia e foi preso. Em agosto de 2024, o homem foi condenado em júri popular a 220 anos de prisão. A pena recebida foi por quatro homicídios qualificados e cinco tentativas de homicídio qualificado.
Farias Brito (CE), abril de 2023
Um adolescente de 14 anos atacou duas meninas de nove anos com um objeto cortante na Escola Municipal Isaac de Alcântara. Uma delas foi ferida com gravidade, passou por cirurgia e teve de ficar internada. O adolescente foi apreendido pela polícia e está em uma unidade socioeducativa. Ele responde por ato análogo ao terrosismo e apologia ao nazismo, pois investigadores encontraram bandeiras com símbolos nazistas e simulacros de facas e capacetes.
Cambé (PR), junho de 2023
Um ex-aluno da Escola Estadual Helena Kolody entrou na escola e disse que iria solicitar o seu histórico escolar. Ele estava armado e matou um casal de adolescentes. Segundo investigação policial, o homem de 21 anos agiu por vingança, pois sofreu bullying quando estudou na instituição. Em junho de 2023, ele apareceu morto na prisão. De acordo com a polícia, ele se enforcou.
Poços de Caldas (MG), outubro de 2023
Um ex-aluno de 14 anos da escola particular Dom Bosco cometeu um atentado à faca: ele esfaqueou um estudante, também de 14 anos, na porta da instituição, e feriu outros três. O agressor foi detido pela polícia. De acordo com a investigação, o crime foi premeditado e anunciado nas redes sociais.
São Paulo, outubro de 2023
Um estudante de 15 anos entrou armado e disparou contra alunos na Escola Estadual Sapopemba. Uma adolescente de 17 anos foi morta após ser baleada na cabeça, e outras duas estudantes ficaram feridas. A arma pertencia ao pai. Atividades de acolhimento foram realizadas na volta às aulas após o atentado. O estudante está na Fundação Casa e responde por ato infracional análogo a homicídio e tentativas de homicídio. O advogado que defende o autor alega que ele sofria de bullying, que a Secretaria de Educação tinha conhecimento e foi omissa.
Segundo a psicóloga Talita Lahr, pesquisadora do Gepem (Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral) da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), uma das explicações para o boom dos casos de violência em 2022 e 2023 foi o crescimento de comunidades obscuras da internet, que antes eram da deep web e passaram para plataformas como o Discord e o X.
“São comunidades que acabam incentivando a violência escolar e os massacres, que são chamadas de TCC, as True Crime Communities, onde jovens e adolescentes se reúnem e acabam dialogando sobre essas situações e incentivando o cometimento desses crimes”, afirmou Lahr ao Nexo. A facilitação do porte de armas por meio da expansão dos CACs (Colecionadores, Atiradores Desportivos e Caçadores) é outro elemento que soma a esse cenário, de acordo com pesquisas desenvolvidas no Gepem.
Relatórios como “Ataques de violência extrema em escolas do Brasil” mapearam as características comuns dos autores dos ataques: são alunos e ex-alunos, adolescentes, brancos, que disseminam discursos misóginos e racistas e que tiveram a escola como palco de sofrimento.
“São pessoas que, em algum momento, sofreram situações de bullying e provavelmente não tiveram suporte na escola, e não tiveram a escola como espaço de pertencimento. Nessas comunidades online, eles encontram pertencimento, voltam e atacam a instituição”, disse Lahr.
Na sequência dos atentados, autoridades anunciaram ações que miram a segurança, como mais câmeras e policiamento nos arredores das instituições. O Ministério da Justiça e Segurança Pública lançou em abril de 2023, em parceira com a organização não governamental SaferNet Brasil, um canal para receber denúncias de ataques contra escolas, que envolve uma equipe com 51 chefes de delegacias de investigação, 89 chefes de inteligência de Polícias Militares e Polícias Civis e 25 policiais federai. Os profissionais trabalham na apuração das denúncias, que podem ser anônimas. É possível denunciar sites, blogs, redes sociais e fóruns com conteúdos suspeitos.
“A criação de um canal único de denúncia e essa investigação preventiva, sem divulgação para não favorecer o efeito contágio, certamente favoreceu a redução de ataques violentos”, disse Lahr. Em 2024, não foram registrados ataques nas escolas. O governo federal monitora, por meio da Operação Escola Segura, casos de indivíduos que estariam envolvidos na radicalização de jovens e no incentivo à ataques.
Alunos saindo de escola no Distrito Federal
O Ministério da Educação divulgou 13 medidas de prevenção e combate aos ataques, que integra a investigação de comunidades extremistas de ódio, promoção de uma cultura de paz nas escolas e melhoria do acolhimento nas instituições educacionais brasileiras.
A Secretaria de Educação do Pará focou justamente nas questões relacionadas à boa convivência no programa Escola Segura, que completou um ano de funcionamento em abril de 2024. Os profissionais da secretaria envolvidos na ação avaliam que o direcionamento do programa para a escuta e acolhimento dos alunos foi crucial para o sucesso da iniciativa.
Foram implementadas ações a partir da Assessoria de Convivência Educacional, como palestras, atendimento de equipes multidisciplinares e qualificações de professores e psicólogos, cuja base é a educação antirracista. O policiamento nas escolas também foi reforçado, e um aplicativo foi criado para avisar pais e responsáveis em situações emergenciais.
Na análise da pesquisadora Talita Lahr, do Gepem, a adoção de ações para criar um clima educacional positivo é o principal caminho para promover a saúde mental de crianças, adolescentes e de toda a comunidade escolar.
“Em 2023, a questão da segurança ficou mais em pauta, inclusive com sugestões que podem gerar ainda mais medo, como a colocação de catracas, o que pode inclusive impedir a saída de alunos em uma situação de ataque. Agora, é preciso olhar para a convivência, identificar situações de violência e ter ações assertivas em casos de bullying”, afirmou Lahr.
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