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Como Israel usa a fome como arma de guerra na Faixa de Gaza

Aline Pellegrini e Suzana Souza

02 de abril de 2024(atualizado 02/04/2024 às 21h48)

Instituições de ajuda humanitária anunciam suspensão de ações no território palestino. Medida foi tomada após ataque de forças israelenses matar trabalhadores de organização não-governamental

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Grupos humanitários anunciaram nesta terça-feira (2) a suspensão de ações na Faixa de Gaza. A medida tomada para proteger trabalhadores foi anunciada após sete funcionários da ONG World Central Kitchen, que atuava no território distribuindo alimentos, serem mortos por um ataque aéreo de Israel. O Durma com Essa fala sobre as ações contra a fome na região e mostra como forças israelenses atuam para bloquear a entrada de ajuda aos palestinos. O episódio também tem Marcelo Roubicek explicando a recente alta do ouro.

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Edição de áudio Pedro Pastoriz

Produção de arte Mariana Simonetti

Transcrição do episódio:

Aline: Um quadro de destruição e de catástrofe num conflito que dura quase seis meses. Um quadro de emergência que é agravado pela falta de recursos básicos. Um quadro que inclui uma das armas de guerra mais antigas e vergonhosas da humanidade: a fome. Eu sou a Aline Pellegrini e este é o Durma com Essa, o podcast de notícias do Nexo.

Suzana: Olá, eu sou a Suzana Souza e tô aqui com a Aline pra apresentar este podcast que vai ao ar de segunda a sexta, todo começo de noite, sempre com notícias que podem continuar a ecoar por aí.

[trilha de abertura]

Aline: Terça-feira, 2 de abril de 2024. Dia seguinte à morte de sete trabalhadores humanitários da ONG World Central Kitchen. Eles estavam num comboio que sofreu um ataque aéreo de Israel na Faixa de Gaza. Os funcionários da organização trabalhavam no local com a  distribuição de refeições para a população do território, que sofre com a fome desde que o governo israelense impôs um cerco total à região, dificultando a entrada de ajuda humanitária.

Suzana: Os funcionários mortos eram originários dos Estados Unidos, Austrália, Polônia e Reino Unido. A organização de caridade criada pelo chef espanhol José Andrés disse que avisou os militares israelenses sobre o deslocamento dos trabalhadores humanitários. Poucas horas antes do ataque, eles haviam descarregado 100 toneladas de alimentos no norte da Faixa de Gaza, região mais arrasada do território.

Aline: O primeiro-ministro israelense comentou o ataque nesta terça-feira. Benjamin Netanyahu disse em vídeo que aconteceu, abre aspas “um acidente com nossas forças, que sem intenção atingiu pessoas inocentes na Faixa de Gaza. Isso acontece em tempos de guerra”, fecha aspas.

[áudio Netanyahu]

00:01 – 00:12

Infelizmente no último dia houve um trágico acidente com nossas forças, que sem intenção atingiram pessoas inocentes na Faixa de Gaza. Isso acontece em tempos de guerra.

Suzana: O ataque israelense na noite de segunda-feira se soma a uma série de outras ofensivas das forças de Netanyahu que atingem a distribuição de ajuda humanitária no território. Se soma também às alternativas que alguns países encontram de fornecer alívio à região, de reabastecer os estoques de comida e medicamentos, como o envio de alimentos por ar. Um envio que tem causado tragédias. 

Aline: No início de março, carregamentos de ajuda humanitária lançados por aviões atingiram palestinos no campo de refugiados Al Shati, matando cinco pessoas e deixando uma dezena de feridos. E na semana passada doze pessoas morreram afogadas enquanto tentavam alcançar pacotes de ajuda humanitária enviados pelos Estados Unidos e lançados de avião numa praia no norte do território. 

Suzana: Organizações que lidam com ajuda internacional afirmaram ao jornal americano The New York Times que as entregas não substituem o acesso de trabalhadores humanitários à população e são uma distração de medidas mais significativas que o governo de Joe Biden poderia tomar, como pressionar o aliado Israel pelo fim dos bombardeios. 

Aline: A ajuda por ar começou a ser enviada por países como Estados Unidos, Jordânia, Egito, França, Holanda e Bélgica após um atentado contra palestinos que aguardavam a entrega de comida e medicamentos de um caminhão no norte da Faixa de Gaza em fevereiro. Mais de cem pessoas morreram e centenas ficaram feridas. Israel admitiu que soldados dispararam contra palestinos por se sentirem ameaçados. 

Suzana: Mas ainda assim o governo Netanyahu sustenta que a maioria das mortes nesse episódio ocorreu por pisoteamentos e atropelamentos. O grupo extremista Hamas, que governa o território invadido, afirma que as mortes foram consequência dos tiros dos soldados. O episódio aconteceu no mesmo dia em que o número de palestinos mortos em Gaza desde o início do conflito, em 7 de outubro de 2023, passou de 30 mil, de acordo com o Ministério da Saúde do território.

Aline: No início de março, a foto de um menino palestino de dez anos que morreu por desnutrição grave foi considerada o rosto da fome que assola a Faixa de Gaza. Sem o essencial, muitos palestinos recorrem a soluções improvisadas, como se alimentar de ração animal para conseguir sobreviver, mas até soluções extremas como essa estão se esgotando. 

Suzana: O contexto de fome crescente em Gaza é agravado pela restrição severa do fornecimento de ajuda humanitária ao território, bloqueada por diversas razões, como escombros, combates ou pela burocracia de Israel, com milhares de pessoas passando necessidades básicas. 

[mudança de trilha] 

Aline: Um relatório da IPC, Classificação Integrada de Fases de Segurança Alimentar, uma iniciativa composta por organizações governamentais, ONGs e agências da ONU, retrata a gravidade da situação no território. Das cinco áreas da Faixa de Gaza, duas estão no pior patamar, intitulado como catástrofe. 

Suzana: Esse é um nível estabelecido quando as pessoas usam todas as suas estratégias de sobrevivência, mas mesmo assim quase não têm alimentos e não conseguem satisfazer suas necessidades básicas de nutrição. Com isso, ficam evidentes a fome, a morte, a miséria e os níveis extremamente críticos de desnutrição aguda, segundo o relatório.

Aline: As outras três áreas da Faixa de Gaza estão no nível de emergência. Isso significa que as pessoas que vivem nessas áreas enfrentam uma escassez extrema de alimentos, desnutrição aguda e níveis de doenças excessivamente elevados. Ou seja, toda a Faixa de Gaza se encontra em uma situação de emergência ou de catástrofe. 

Suzana: A escassez de alimentos, que já era uma realidade do território mesmo antes da guerra é agravada pela paralisação da indústria agrícola na Faixa de Gaza, que foi ou destroçada ou abandonada por causa do conflito contra Israel. Segundo as Nações Unidas, mais da metade das terras usadas para a agricultura foi arruinada. 

Aline: Os representantes da ONU destacaram que, com os bombardeios israelenses e a proibição da entrada de recursos como água e combustível para geradores, obter comida por meio da agricultura e da pesca tornou-se praticamente impossível em Gaza. A organização também diz que o volume de ajuda humanitária caiu pela metade em fevereiro na comparação com janeiro, quando já era insuficiente. 

Suzana: A ONU também alerta para a iminência de uma crise de saúde pública, causada pela falta de abrigo, saneamento e cuidados médicos. Além disso, contribui para o quadro de emergência e catástrofe as acusações de Israel de que 12 funcionários dos 13 mil da agência da ONU para refugiados palestinos participaram da ofensiva de 7 de outubro, quando o Hamas atacou Israel deixando cerca de 1200 mortos e sequestrando aproximadamente 250 pessoas. As alegações são investigadas e a agência nega cumplicidade com o grupo extremista.

Aline: A agência da ONU acusada por Israel é subordinada diretamente à Assembleia-Geral das Nações Unidas e presta ajuda a cerca de 6 milhões de refugiados palestinos espalhados pelo Oriente Médio. Gerencia escolas, clínicas de saúde, projetos de infraestrutura e programas sociais em campos de refugiados.

Suzana: Ela é o principal pilar das operações de fornecimento de ajuda humanitária, como alimento, água e medicamentos, para a Faixa de Gaza. As instalações da instituição, como escolas e clínicas de saúde, estão servindo de abrigo para milhares de palestinos. A agência funciona com doações voluntárias de países-membros da ONU, instituições e organizações. 

Aline: Mas depois das acusações do governo Netanyahu, diversos países anunciaram um corte de financiamento da agência, colocando as operações dela em risco. Alguns voltaram a financiar a organização depois de algumas semanas, mas nem todos. 

Suzana: Para as Nações Unidas, Israel mata de fome os palestinos em Gaza intencionalmente e os “piores medos” em relação à fome extrema na Faixa de Gaza são hoje uma realidade. O alerta foi feito após hospitais do território palestino registrarem pelo menos 10 mortes de crianças por desnutrição, num número oficial que as agências da ONU dizem estar subestimado. O governo israelense nega as acusações e afirma que a organização é responsável por não conseguir entregar mantimentos aos civis.

Aline: Num ensaio publicado em 22 de março pela revista americana Foreign Affairs, cinco autores, entre eles três ex-secretários da Agricultura dos Estados Unidos, dizem que as guerras são motores centrais para a fome no mundo. Essa ligação entre confrontos e a fome decorre de um método de transformar os alimentos em armas. 

Suzana: Isso acontece, segundo os autores, pela perturbação ou ameaça de perturbação do abastecimento alimentar de uma população, da destruição de explorações agrícolas, da manipulação do abastecimento alimentar e do uso de cercos e bloqueios calibrados para matar de fome os civis presos dentro de um território. Abre aspas pro texto: “a comida é uma arma de guerra. Tal como as armas nucleares, a transformação de alimentos em armas pode provocar mortes em massa de civis e horrores impensáveis, provocando indignação moral legítima perante a perspectiva da sua utilização”. Os autores citam a situação atual na Faixa de Gaza como um exemplo disso. 

Aline: A ofensiva israelense contra o comboio da World Central Kitchen fez instituições de caridade anunciarem nesta terça-feira a suspensão das ações na Faixa de Gaza para proteger seus trabalhadores. Com a interrupção dos serviços, a situação no território tende a ficar ainda pior.

Suzana: O Durma com Essa volta já. 

[mensagem Rádio Novelo] 

Na televisão, a apresentadora anuncia: “mulher é fuzilada por agentes da ditadura”. Era 1972, e nessa época a notícia não era tão surpreendente assim. Mas uma menina que tava assistindo levou um susto: o nome da vítima  era Sonia Maria Sampaio Alem. O nome da mãe dela. Mas a mãe tava ali do lado, vendo TV e levando o susto junto com ela. Como é possível? Eu sou o Vitor Hugo Brandalise e, no episódio desta semana do podcast Rádio Novelo Apresenta, eu conto a história de duas mulheres com trajetórias opostas que um dia se cruzaram. A guerrilheira e a dona de casa. Uma história que mostra porque a gente tem que falar — e muito! — sobre o golpe de 64 e as consequência dele pro país. Rádio Novelo Apresenta. Toda quinta tem episódio novo, com histórias que você nem sabia que precisava ouvir.

[trilha redação]

Aline: Os primeiros meses de 2024 foram marcados por altas inéditas do ouro. A cotação do metal bateu sua máxima na segunda-feira. O movimento de aumento dura meses, e surpreende muitos economistas por ocorrer em um contexto distinto de outras ocasiões de alta. O Marcelo Roubicek escreveu sobre o tema. Marcelo, o que tem de surpreendente nessa alta?

Marcelo: Bom, o ouro tem algumas características muito específicas que diferenciam ele dos outros produtos. Primeiro que nenhum outro produto pode dizer que foi durante séculos a base do sistema monetário internacional. Mas tem outras características importantes aí, como o fato de ser um metal muito durável, de ter um lastro físico, de ter uma oferta limitada… Enfim, tudo isso faz com que o ouro seja visto normalmente como um ativo de segurança.

E por isso é comum que o ouro seja mais procurado em tempos de turbulência. Se a inflação tá alta, se tem alguma crise no horizonte, o ouro sobe. E lembrando que o metal não rende juros ou dividendos. Então quando as taxas de juros estão baixas no mundo, isso costuma dar um apelo extra pro ouro. Mas neste momento, o cenário não parece muito bater com essas coisas. A inflação no mundo tá caindo. Tinha uma expectativa de recessão em países desenvolvidos, mas ela não se concretizou. E os juros continuam altos nos EUA e na Europa. Por isso essa alta do ouro agora pegou muitos economistas de surpresa.

Aline: E Marcelo, o que explica essa alta do ouro?

Marcelo: Tem algumas razões. Primeiro que os juros nos EUA e na Europa estão altos, mas os mercados estão esperando que eles vão começar a cair em breve. Então muitos investidores estão se antecipando e já procurando o metal. E tem outros motivos que refletem movimentos maiores. Um deles é o fato de que os Bancos Centrais de países emergentes e em desenvolvimento tão comprando ouro em quantidades muito altas. E isso seria um reflexo da possibilidade, que tá sendo muito discutida no mundo todo nos últimos anos, de que o dólar tá perdendo sua hegemonia como moeda central do sistema monetário global.

Outro motivo é que os EUA conseguiram evitar uma recessão, mas a China tá passando por uma crise importante. Então tem muita demanda de chineses por ouro, o que tá ajudando a impulsionar o preço. Fora que não é que o mundo tá exatamente estável — a gente não pode esquecer que tem duas guerras importantes acontecendo, com muita tensão geopolítica, e ainda as eleições americanas no horizonte. Então tudo isso estaria afetando o preço do ouro.

Aline: O texto do Marcelo você lê no nexojornal.com.br. 

[trilha final]

Suzana: Do uso da fome como arma de guerra a alta do ouro, durma com essa. 

Aline: Com roteiro, produção e apresentação de  Aline Pellegrini, apresentação e edição de texto de Suzana Souza, participação de Marcelo Roubicek, produção de arte de Mariana Simonetti e edição de áudio de Pedro Pastoriz, termina aqui mais um Durma com essa. Amanhã tem mais. Até 

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