Acadêmico

O papel das parlamentares brasileiras na promoção da igualdade de gênero

Beatriz Rodrigues Sanchez

10 de maio de 2017(atualizado 28/12/2023 às 12h05)
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Dissertação - Teoria política feminista e representação substantiva: uma análise da bancada feminina da Câmara dos Deputados

Autora

Beatriz Rodrigues Sanchez

Orientador

Adrian Gurza Lavalle

Área e sub-área

Ciência Política, Teoria política feminista

Defendida em

Universidade de São Paulo, Departamento de Ciência Política 20/01/2017

Link para o original

Temas dos Projetos de Lei aprovados (1995-2010)

MULHERES HOMENS TOTAL
% % %
Adm. e Organização dos Poderes 2 2,9 43 9,95 45 8,98
Infraestrutura 4 5,8 27 6,25 31 6,19
Meio-ambiente 3 4,35 5 1,16 8 1,6
Política Externa 0 0 3 0,69 3 0,6
Política Social 6 8,7 8 1,85 14 2,79
Saúde 2 2,9 14 3,24 16 3,19
Segurança e Criminalidade 5 7,25 22 5,09 27 5,39
Tributos e arrecadação 5 7,25 7 1,62 12 2,4
Ciência 0 0 2 0,46 2 0,4
Comunicações 2 2,9 9 2,08 11 2,2
Cultura 2 2,9 7 1,62 9 1,8
Defesa Nacional 0 0 0 0 0 0
Direitos e Cidadania 16 23,19 53 12,27 69 13,77
Economia 10 14,49 33 7,64 43 8,58
Educação e Esporte 8 11,59 24 5,56 32 6,39
Homenagem 4 5,8 166 38,43 170 33,93
TOTAL 69 100% 423 100% 492 100%

Fonte: elaboração própria a partir de banco de dados do Núcleo de Pesquisa de Políticas Públicas.

Esta pesquisa investiga se as parlamentares do Congresso Nacional efetivamente representam os interesses das mulheres em sua atuação. O estudo busca entender em particular o papel da bancada feminina da Câmara dos Deputados na formulação e aprovação de projetos de lei relacionados à promoção da igualdade de gênero.

Ao se debruçar sobre o conteúdo da representação política das mulheres, a pesquisa vai além do caráter quantitativo da questão, que costuma ser mais estudado. Segundo a autora, quando as experiências femininas  entram no espaço da política institucional têm o potencial de politizar a vida privada. Um exemplo disso é a aprovação da Lei Maria da Penha, de 2006, que tornou público um tema que antes era considerado privado: a violência doméstica e familiar contra a mulher.  

1Qual a pergunta a pesquisa responde?

As parlamentares representam os interesses das mulheres? O estudo parte da hipótese, defendida por autoras da teoria política feminista, de que o aumento da representação política feminina nas instituições legislativas teria como consequência a formulação de mais e melhores políticas públicas voltadas para a promoção da igualdade de gênero.

2Por que isso é relevante?

O século 20 foi marcado por uma contradição no que diz respeito à conquista da igualdade de gênero: por um lado, direitos políticos e civis foram alcançados pelas mulheres, como, por exemplo, o direito ao voto e o acesso ao ensino superior; por outro, a ocupação de cargos representativos nas instâncias legislativas e executivas ainda continua sendo um campo de difícil acesso para a população feminina. Nesse sentido, as pesquisas empíricas sobre a representação política das mulheres têm se dedicado com maior empenho à dimensão da representação descritiva, ou seja, à análise dos mecanismos de exclusão e à sugestão de alternativas para aumentar a quantidade de mulheres nos parlamentos. Um número menor de trabalhos tem se debruçado sobre a análise da representação substantiva das mulheres, cujo foco é o conteúdo da representação. Ao abordar o tema da representação política substantiva das mulheres no Brasil, este trabalho contribui para o preenchimento de uma lacuna da literatura.

3Resumo da pesquisa

Esta pesquisa possui propósito duplo: um teórico e outro empírico-descritivo. No plano da teoria política, a pesquisa se propõe a contribuir para o debate sobre a representação política feminina, com base na análise de caso do Congresso Nacional brasileiro, sob a perspectiva da representação substantiva. O segundo objetivo, de teor empírico-descritivo, é entender o papel da bancada feminina da Câmara dos Deputados na formulação e aprovação de projetos de lei relacionados à promoção da igualdade de gênero. Ao final, será apresentada uma tipologia que permitirá a classificação de proposições legislativas relacionadas à igualdade de gênero.

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4Quais foram as conclusões?

É importante que haja mulheres nos parlamentos para que elas promovam a representação substantiva dos interesses de outras mulheres. Ou seja, a chamada “política da presença” pode promover a representação substantiva das mulheres. No entanto, apenas ser mulher não é suficiente. Parlamentares que têm sua trajetória vinculada a partidos de esquerda e movimentos feministas têm maior comprometimento com as demandas feministas. Além disso, a divisão entre público e privado derivada do liberalismo clássico se manifesta na atuação das parlamentares na forma de estereótipos de gênero. No entanto, a diferenciação feita entre “hard politics” e “soft politics” pode ocultar o fato de que as experiências das mulheres quando adentram o espaço da política institucional podem politizar a vida privada. Isso quer dizer que a representação substantiva das perspectivas sociais das mulheres tem como consequência uma atuação diferenciada que não é somente “soft”. No caso da aprovação da Lei Maria da Penha, por exemplo, ao tornar público um assunto que antes era considerado privado, ocorreu uma reorganização das prioridades políticas. Dessa forma, a inclusão das mulheres nos parlamentos pode ir além dos estereótipos de gênero e possibilitar novas potencialidades de atuação política.

5Quem deveria conhecer seus resultados?

Os resultados desta pesquisa deveriam ser conhecidos não apenas pela bancada feminina do Congresso Nacional, como por todos os parlamentares. Além disso, militantes dos movimentos feministas poderiam obter informações relevantes sobre como atuar em sua interação com o Legislativo para que suas demandas fossem atendidas. O atual contexto político brasileiro e mundial não nos deixa muito otimistas com relação às possibilidades de representação política das perspectivas sociais dos grupos marginalizados. Por outro lado, as mobilizações dos movimentos sociais e, mais especificamente, dos movimentos feministas, contra o status quo mostram que as disputas políticas não ocorrem somente no âmbito da política institucional. Olhar para essas outras formas de se fazer política é necessário para que possamos enxergar um horizonte possível de transformação social nessa conjuntura.

Beatriz Rodrigues Sanchezé doutoranda e mestra em Ciência Política pela USP (Universidade de São Paulo). É formada em Relações Internacionais pela mesma universidade. É pesquisadora do Grupo de Estudos de Gênero e Política da USP e do Núcleo Democracia e Ação Coletiva do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento).

Referências

  • MANSBRIDGE, Jane. Should Blacks represent Blacks and Women represent Women? A Contingent ‘Yes.’ Journal of Politics, v. 61, n. 3, p. 628-657, 1999.
  • PHILLIPS, Anne. The politics of presence. Oxford: Clarendon, 1995.
  • PITKIN, Hanna. The concept of representation. Berkley: University of California Press, 1967.
  • WILLIAMS, Melissa. Voice, trust, and memory: marginalized groups and the failings of liberal representation. Princeton: Princeton University Press, 1998.
  • YOUNG, Iris. Inclusion and democracy. Oxford: Oxford University Press, 2000.

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