Dissertação: Reflexões sobre verdade e política: mapeando controvérsias do Kit Gay
Autor
João Gabriel Maracci, Universidade Federal do Rio Grande do Sul
LattesOrientadora
Paula Sandrine Machado
Área e sub-área
Psicologia social, psicologia política
Publicado em
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social e Institucional 22/08/2019
Como participar?
Esta dissertação de mestrado, realizada na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), examina a construção da polêmica do “kit gay”, que ganhou notoriedade durante a eleição presidencial de 2018.
A existência de um “kit gay” distribuído em escolas públicas, que teria ensinado crianças a se acariciarem e se beijarem — conforme alegou o presidente Jair Bolsonaro durante e após sua campanha eleitoral —, vem sendo repetidamente desmentida como uma distorção do projeto Escola sem Homofobia, iniciativa do Ministério da Educação de combate ao preconceito, vetada pela ex-presidente Dilma Rousseff em 2011.
No entanto, o autor argumenta que o termo “kit gay” teve seu uso ampliado para além da associação inicial ao projeto Escola sem Homofobia — e refutá-lo pode ser mais complexo do que se imagina.
Na campanha eleitoral de 2018, foram vastas as referências ao chamado “kit gay”, controvérsia pública que se desdobra ainda hoje no cenário político brasileiro. Para alguns, o termo remetia a uma verdade incontestável, relacionada diretamente a livros e materiais pedagógicos que representavam uma ameaça à infância e à autoridade familiar. Para outros, o “kit gay” não passava de uma mentira, um apelido falacioso para a cartilha do programa Escola sem Homofobia, apresentada pelo Ministério da Educação e vetada por Dilma Rousseff em 2011, que visava à redução do preconceito em salas de aula.
Reconhecendo, neste desencontro argumentativo, duas formas conflitantes — e até mesmo incompatíveis — de afirmar o que seria o “kit gay”, a presente pesquisa parte de um questionamento: “será que estamos, de fato, falando sobre a mesma coisa?” Nesse sentido, buscou-se responder como se constituiu, na cena política brasileira, o significante “kit gay” e como este passou a abranger diversos temas relacionados à diversidade sexual e de gênero, transformando-se e ampliando-se ao longo de oito anos de controvérsias.
A relevância do trabalho situa-se na desnaturalização do significante “kit gay”, demonstrando como o termo pode operar na designação de assuntos diversos, até mesmo incompatíveis entre si. Assim, apresenta-se um entendimento da controvérsia não amparado apenas nas distinções entre “verdade” e “mentira”, que conduziram o debate na última década, buscando a complexidade dos arranjos materiais que possibilitaram a constituição do “kit gay” como um fato da política.
A pesquisa propõe-se a refletir sobre as relações entre verdade e política a partir da polêmica do “kit gay”. Para tanto, utilizou-se como ferramenta teórica e empírica o mapeamento de controvérsias, prática oriunda dos estudos da ciência e tecnologia, embasada na concepção de “verdade operativa”. Metodologicamente, buscou-se percorrer as redes constitutivas da polêmica em materiais virtuais, atentando para os atores articulados e suas modificações entre os anos de 2011 e 2018. Compuseram o mapeamento 30 notícias, 14 colunas de opinião, sete vídeos no YouTube, três documentos de órgãos governamentais, três tuítes e quatro materiais de outros tipos — somando 61 publicações avaliadas.
Sob tal empreendimento, constata-se o movimento de aproximação e afastamento entre os significantes “kit gay” e Escola sem Homofobia, bem como o uso do primeiro enquanto mobilizador e articulador de oposição a pautas entendidas como “de esquerda”. Observa-se a força retórica e persuasiva que tal polêmica assume no campo político brasileiro, principalmente quando é associada à “ideologia de gênero” — suposta investida internacional e marxista contrária a um ideal de família tradicional.
Primeiramente, constatou-se a relação ambígua entre os significantes “kit gay” e “Escola sem Homofobia”. Nas páginas que contestam a veracidade do “kit gay”, é comum a associação do termo ao material pedagógico financiado pelo Ministério da Educação e vetado por Dilma Rousseff em 2011 — resumindo sua apreensão pública a uma mentira, visto que a cartilha sequer havia entrado em circulação. No entanto, em portais que afirmam a veracidade do “kit gay”, é notável seu afastamento da polêmica inicial, passando a significar diversos outros materiais, referentes a estados, municípios ou livros que não compunham o projeto de 2011.
Além disso, aponta-se a dificuldade da crítica em considerar a polêmica para além dos critérios de “verdade” ou “mentira”, à medida que, assumindo o “kit gay” apenas como uma falácia, deixou-se de lado os complexos modos com que ele assumiu graus de veracidade no campo da internet, constituindo-se, por fim, como um fato político. Por essa via, aposta-se no mapeamento de controvérsias como forma de adentrar tais temáticas sem renunciar ao debate, apontando não apenas o que há de falso, mas também o que é verdadeiro na polêmica do “kit gay”, em vias de afirmar a importância da redução dos estigmas e preconceitos contrários à população LGBTI brasileira.
Os resultados são de interesse para acadêmicos, agentes da política institucional, ativistas e pessoas interessadas nas conexões entre verdade e política, sobretudo na interface com as questões de gênero e diversidade sexual. A pesquisa aponta a importância de debater assuntos “polêmicos” sem o ímpeto resolutivo de estabilizá-los como “verdade” ou “mentira”, mas sim buscando compreender como essas próprias categorias são disputadas e redelimitadas no campo da internet. Além disso, tem como princípio a promoção e efetivação de direitos para a população LGBTI, reconhecendo o cenário de violência perpetrado em nosso país contra minorias sexuais.
João Gabriel Maracci é mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social e Institucional da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e graduado em psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Trabalha com pesquisas nas áreas de gênero, sexualidade, tecnologia e política.
Referências
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