Dissertação: Quem financia a democracia brasileira? Uma análise empírica das reformas de financiamento eleitoral de 2015 e 2017
Autora
Felipe Lauritzen, Sciences Po Paris
LattesOrientadora
Julia Cagé
Área e subárea
Ciência política, democracia
Publicado em
Paris School of International Relations 19/06/2020
Como participar?
Esta dissertação de mestrado, elaborada por Felipe Lauritzen na Sciences Po Paris, realiza um panorama estatístico sobre quais foram as mudanças ocasionadas pelas reformas de financiamento do sistema eleitoral brasileiro nos anos de 2015 e 2017.
No Brasil, há uma regulamentação pouco assertiva no que se refere às contribuições eleitorais. Os resultados da pesquisa sinalizam que a quantidade de votos de um candidato está relacionada à quantia de dinheiro investido na campanha. O autor indica que tal fato pode auxiliar na compreensão do resultado das eleições legislativas de 2018.
Em 2015 e 2017, importantes reformas no sistema de financiamento eleitoral brasileiro foram feitas, entre elas: a proibição total de doações corporativas pelo Supremo Tribunal Federal e a criação de um fundo público bilionário para financiar as campanhas dos candidatos pelo Congresso Nacional.
No entanto, pouco ainda se sabe até que ponto essas reformas melhoraram o sistema de financiamento eleitoral. Assim, a pesquisa responde principalmente à pergunta sobre como tais reformas afetaram o sistema de financiamento eleitoral no Brasil, identificando como o sistema era estruturado e quem mais se beneficiou quanto à orientação política (direita, centro-direita, centro-esquerda e esquerda).
Existem ainda poucos trabalhos acadêmicos sobre o impacto das reformas de financiamento eleitoral de 2015 e 2017 nas eleições subsequentes. Nesse sentido, entender este impacto pode ajudar a explicar, em parte, o resultado das eleições legislativas de 2018, que viram uma escalada da extrema direita e dos partidos do chamado “centrão”, além de uma redução da participação dos partidos de esquerda e centro-esquerda.
O Brasil tem sido historicamente explorado por uma elite econômica e política, que vê a política como uma forma de exercer sua influência para proteger seus interesses e privilégios e manter as desigualdades de riqueza e renda. Um caminho comum para alcançar tal influência na política é por meio de eleições.
Com uma regulamentação pouco efetiva das contribuições eleitorais no Brasil, as contribuições corporativas acabaram inundando as campanhas eleitorais desde a redemocratização até 2014. Algumas tentativas de reforma do sistema foram feitas em 2015 e 2017, com a proibição total dessas doações corporativas pelo Supremo Tribunal Federal e a criação do Fundo Eleitoral pelo Congresso Nacional, um fundo público bilionário para financiar as campanhas dos candidatos.
Para responder à pergunta de pesquisa, foram apresentadas estatísticas descritivas e um modelo de regressão logística condicional adaptado, o qual permite avaliar estatisticamente a probabilidade de um evento ocorrer em função da variação no valor de uma variável contínua, nesse caso específico, a probabilidade de candidatos em eleições legislativas e municipais conquistarem votos em sua zona eleitoral a partir do valor proporcional gasto na sua campanha dentro daquela zona. Além disso, muitos autores da área já haviam apontado para a natureza endógena da relação entre gastos de campanha e votos, o que dificulta a confirmação de causalidade entre as duas variáveis.
A fim de apurar a hipótese, analisou-se a variação de gastos dos candidatos entre 2014 e 2018, dado que as reformas funcionaram como um “choque” no sistema. Os dados utilizados nesta dissertação foram extraídos, limpos e compilados do site do TSE (Tribunal Eleitoral Brasileiro) e do banco de dados dos pesquisadores David J. Samuels e Bruno Carazza, abrangendo todas as eleições gerais de 1994 a 2018 e todas as eleições municipais de 2004 a 2016.
Foi possível constatar que um maior gasto de campanha eleitoral significa, estatisticamente, mais votos. Essa conclusão oferece uma grande contribuição para a área sobre o tema, que até então era inconclusiva sobre essa causalidade, e é baseada nos resultados de um modelo de regressão logística condicional realizado com dados do TSE referentes a 11 eleições municipais e legislativas desde 1994 até 2018.
O modelo controla os efeitos de outras variáveis como heterogeneidade nos índices de desigualdade de renda, educação, pobreza e desemprego dos municípios e estados analisados, além de controles sobre as caraterísticas dos candidatos e do eleitorado.
A sociedade em geral. A eleição é um dos momentos mais importantes da nossa vida democrática, porque é quando escolhemos aqueles que irão representar as nossas decisões e prioridades enquanto sociedade. Sendo assim, é importante que a sociedade como um todo entenda a importância de ter o Estado, e não poucos indivíduos privados, enquanto o principal financiador desse momento. E mais do que isso, exija uma distribuição equitativa de recursos para garantir uma igualdade de condições de se fazer representar em uma disputa eleitoral.
Felipe Lauritzen é mestre em desenvolvimento internacional pela Sciences Po Paris e graduado em relações internacionais pela Universidade de Brasília. Trabalha hoje como coordenador de relações públicas com parlamentares e com a sociedade civil na OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), e já trabalhou em outras organizações internacionais como Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) e AFD (Agência Francesa de Desenvolvimento). Além disso, é co-fundador da Conférence Pour le Brésil, uma conferência sobre o Brasil na Sciences Po.
Referências
- AVIS, E., Ferraz, C. et al. (2017). Money and Politics: The Effects of Campaign Spending Limits on Political Competition and Incumbency Advantage. Working Paper 23508. Cambridge, MA: National Bureau of Economic Research, w23508.
- BEKKOUCHE, Y. and J. Cagé (2018). “The Price of a Vote: Evidence from France, 1993-2014”. In: SSRN Electronic Journal. ISSN: 1556-5068.
- CAGÉ, J. (2018). Le Prix de la Démocratie. 1st Ed. Fayard. ISBN: 978-2-213-70461-6.
- CARAZZA, B. (2018). Dinheiro, eleições e poder: as engrenagens do sistema político brasileiro. 1st ed. Companhia das Letras. isbn: 978-85-359-3125-9.
- SAMUELS, D. (2001a). “Does Money Matter? Credible Commitments and Campaign Finance in New Democracies: Theory and Evidence from Brazil”. In: Comparative Politics 34.1, p. 23. issn: 00104159.
- SAMUELS, D. (2001b). “Money, elections and democracy in Brazil”. In: Latin American Politics and Society 43.2, p. 27.