Acadêmico

Os livros coloniais e a história da arquitetura no Brasil

Paula de Souza Carmo Lobato

17 de junho de 2022(atualizado 28/12/2023 às 22h33)
O Nexo depende de você para financiar seu trabalho e seguir produzindo um jornalismo de qualidade, no qual se pode confiar.Conheça nossos planos de assinatura.Junte-se ao Nexo! Seu apoio é fundamental.

Dissertação: Modos de ler, modos de desaprender: os livros e o ensino de arquitetura no Brasil

Autora

Paula de Souza Carmo Lobato

Lattes

Orientadora

Renata Moreira Marquez

Área e sub-área

Arquitetura e Urbanismo, história da arquitetura

Publicado em

Universidade Federal de Minas Gerais 29/10/2021

link para o original

Esta dissertação, desenvolvida por Paula de Souza Carmo Lobato na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), explora os conteúdos acadêmicos e sua circulação no mercado editorial e como eles evidenciam a cultura colonial na história da arquitetura no Brasil.

Segundo a autora, os livros produzidos e distribuídos nos ambientes acadêmicos sobre arquitetura refletem a desigualdade imposta durante o período colonial no Brasil, o que, por sua vez, inviabiliza outras narrativas.

1Qual a pergunta a pesquisa responde?

Em que medida a edição de livros e a circulação de suas narrativas nos espaços de ensino e circuitos culturais produzem e tensionam o entendimento da história da arquitetura no Brasil?

2Por que isso é relevante?

Estamos em um momento no qual é comum diagnosticarmos os entraves na produção de conhecimento na academia brasileira com sua cultura eurocêntrica. A relação entre a escrita da história, o acesso à universidade e o mercado editorial amplifica o entendimento do aspecto colonial que domina a construção dos estudos da arquitetura brasileira.

Tão importante quanto diagnosticar é entender como esse diagnóstico deve influenciar nossas práticas. Nesta pesquisa, centrada no campo da arquitetura, ensaiamos possíveis modos de engajamento com este conteúdo hegemônico, buscando evitar saídas simplistas, como a alteração nas indicações bibliográficas ou um uso passivo desses livros em sala de aula.

Trabalhar o conteúdo desses livros criticamente, através de experimentos práticos, é uma proposta de trazer para o campo da arquitetura o reconhecimento de sua implicação nos processos de violência coloniais, ao mesmo tempo que é também uma tentativa de elaborar modos de desaprendê-lo.

3Resumo da pesquisa

Se relações desiguais de poder oriundas do período colonial seguem mantidas e atualizadas no Brasil institucional, no campo da arquitetura elas são frequentemente normalizadas pela universidade e pela história como narrativa científica e universal difundida pela edição e publicação de livros.

Predominantes na transmissão do saber científico, os livros nos apresentam a história como consenso – e não como disputa –, invisibilizando outras práticas arquitetônicas tão ou mais antigas que aquelas por eles legitimadas. Mas esse viés de conhecimento nunca foi completamente aceito, e contra ele vêm sendo feitas críticas em um circuito cultural ampliado, paralelo à academia, e que enxerga na arte um lugar fundamental para a elaboração de pensamento.

A pesquisa considera também a sala de aula como um espaço de desaprendizado e, por isso, ensaia possíveis formas de engajamento, além de propor experimentos e metodologias editoriais que oferecem outros modos de perceber essas narrativas, a fim de evidenciar suas próprias incompletudes.

A partir de títulos recorrentes na bibliografia básica dos cursos públicos de arquitetura e urbanismo do Brasil, foram propostas alternativas de atuação para arquitetos que, de dentro da academia, desejam localizar e desconstruir o saber predominante que os livros carregam.

4Quais foram as conclusões?

A pesquisa traz exemplos de como trabalhar livros, manuais, compêndios e outros formatos de publicação reconhecidos pela academia e que carregam discursos hoje entendidos como reducionistas, diferenciais, exclusivistas, entre outros – testemunhas de um modo de fazer história que deve ser superado.

Uma leitura crítica a esses livros nos traz a possibilidade de nos desprendermos de suas narrativas míticas, únicas e exitosas, e criar formas de engajamento com o presente libertas do passado colonial, que nos permitam transitar por outros imaginários, afastando-nos das divisões propostas pelo campo disciplinar, enquanto nos aproximamos de práticas reais da arquitetura brasileira.

5Quem deveria conhecer seus resultados?

Arquitetos e arquitetas graduados ou em processo de graduação, além de professores e professoras que procuram ter uma abordagem crítica à bibliografia utilizada em sala de aula. Integrantes de áreas afins, como design e arte e pessoas que se incomodam com as narrativas que encontram nos livros didáticos utilizados no Brasil.


Paula de Souza Carmo Lobato é arquiteta, designer e editora, mestre em arquitetura e urbanismo pela UFMG. Trabalha em projetos de edição e design em aliança com instituições de arte, revistas, universidades, coletivos e grupos afroindígenas e LGBTI+.

Referências

  • Ariella Aïsha Azoulay – Potential History: unlearning imperialism. Londres: Verso Books, 2019.
  • Ariella Aïsha Azoulay – Errata: Fundació Antoni Tàpies.
  • Bruno Moreschi, Ananda Carvalho e Gabriel Pereira – História da _rte. 2017.
  • Renata Marquez – Davi no museu. PISEAGRAMA, Belo Horizonte, número 11, pp.02-21,2017.
  • Paulo Tavares – Des-habitat. São Paulo: N-1 edições, 2021.

Navegue por temas