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Existem vantagens e desvantagens no fato de escrever uma nova coluna a cada 15 dias. A desvantagem é passar a impressão de que se está, sempre, correndo “atrás do atraso”, ou que se quer requentar história velha e que todo mundo conhece. A vantagem vem, talvez, da maturidade e da possibilidade de escuta que só uma certa distância pode trazer.
Vivemos numa época de imediatismos, que fazem com que as notícias estourem na mídia com a mesma velocidade que desaparecem. Linchamentos virtuais são em geral passageiros, a despeito de muito dolorosos na perspectiva de quem os sofre. É por isso que vale a pena esticar a duração de certos episódios, que parecem superados, procurar sair da política de humores acalorados ou dos ódios localizados e tentar perscrutar o que existe por detrás de tanto barulho. Gostaria de retomar, pois, um evento que mexeu com a mídia da semana passada: o caso da cantora Fabiana Cozza , que, segundo sua própria e sensível definição: “dormiu negra e acordou branca”. Diante da pressão das feministas negras, a cantora acabou desistindo de atuar num espetáculo sobre a vida de Dona Ivone Lara, por mais que contasse com a benção da família e da própria sambista. Nem mesmo o fato de ser descendente de pai negro, de se definir e se apresentar como negra, e de ter um repertório musical e pesquisas em torno de canções e ritmos afro-brasileiros deu conta de segurar o rojão dos ativismos.
Pensada nesses termos, a atitude dos coletivos feministas negros lembra censura e intimidação; práticas das quais temos que abrir mão se queremos lutar por um país mais democrático e justo.
Também acredito que a perseguição individual é um pedaço de mau caminho. Particularizar a denúncia implica não permitir que se dê atenção, de fato, ao que se está denunciando: a existência de um racismo estrutural e que faz com que negros e negras tenham menos acesso à educação, à saúde, mas também ganhem um protagonismo restrito na nossa cena cultural. Persiste não só uma ultrajante desigualdade econômica e social, como uma forte discriminação na mídia, no cinema, na literatura, nas artes plásticas, na universidade e no teatro.
Assim, se é preciso falar da dor de Fabiana, e do ataque, na minha opinião, injusto, não me parece suficiente apenas acusar o movimento negro ou desfazer do que está na raiz desse episódio. É justamente essa persistente invisibilidade que está em jogo na prática das feministas negras, e que deveria entrar na agenda de todos os brasileiros. De um lado, pesquisas recentes têm mostrado como o marcador de diferença “raça/cor”, quando interseccionado com “classe”, revela dados insofismáveis de discriminação. Por exemplo, um jovem negro tem 2.5 vezes mais chances de morrer de forma violenta do que um branco. Por outro lado, se incluirmos mais uma variante – gênero/sexo – as políticas de desigualdade tornam-se ainda mais aterradoras.
Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.
Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.
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