Coluna

Lilia Schwarcz

Revoluções sempre trazem despesas

15 de novembro de 2015

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Desde que o Brazil não era Brasil, quando era uma América portuguesa ou um território ameríndio bem no meio de uma porção desconhecida de terra, já tínhamos dificuldades em pensar em termos de res-pública

No dia 15 de Novembro o Brasil comemorou mais um aniversário de sua República. São quase 130 anos de vigência de um projeto que por aqui nasceu titubeante, e continua encabulado. Desde que o Brazil não era Brasil, quando era uma América portuguesa ou um território ameríndio bem no meio de uma porção desconhecida de terra, já tínhamos dificuldades em pensar em termos de res-pública. Frei Vicente Salvador, considerado o primeiro historiador brasileiro, nos idos de 1630 escreveu um belo opúsculo e o chamou de História do Brazil. Concluía ele de forma premonitória: “Nenhum homem nessa terra é republico, nem zela ou trata do bem comum, senão cada um do bem particular”.  Aliás, o mesmo conselho daria Cabral a seus marujos, quando por decreto escreveu que “não deixassem de levar suas casas durante a viagem”.

A monarquia portuguesa, que achou por bem “descobrir” uma terra densamente habitada, tratou logo de bem conservá-la. Mesmo assim, a República ia surgindo, aqui e acolá, na fala do povo.  As últimas décadas do século XVIII, por exemplo,  conheceram três Conjurações diferentes – em Minas Gerais, em 1789; no Rio de Janeiro, em 1794; na Bahia, em 1798 – que associaram o termo República com o propósito de autonomia, reavaliaram o atributo da soberania e articularam liberdade política com ampliação do princípio da igualdade. Foram elas que forneceram as condições para criação, expansão e o enriquecimento de um vocabulário da vida pública na colônia, e, graças à sedição, os colonos encontraram novas maneiras de ver e fazer política.

Mas o processo de independência brasileiro representaria um retrocesso nesses termos, condicionado pela vinda da Família Real em 1808, que elevaria a colônia ao estatuto de Reino Unido, em 1818. Tal processo seria condicionado também pelo desejo das elites nacionais de evitar revoluções populares ou mudanças estruturais: a divisão do país e o final da escravidão. São esses motivos que fizeram com que o Brasil se convertesse em 1822 numa Monarquia, cercada de Repúblicas por todos os lados. No contexto da Independência, o republicanismo ainda sofria o rescaldo do fracasso das três conjurações, estava diretamente associado ao tumulto revolucionário da França e evocava a ameaça do levante escravo – a revolta de 1792 na parte francesa de São Domingos estava viva e atualizada na imaginação da nossa sociedade escravista.

E é nesse período que se cria a mítica daquilo que um historiador um tanto conservador como Pierre Chaunu acreditou ser “hereux Brésil” – a solução monárquica como a alternativa para poupar o Brasil dos “horrores do republicanismo” tão evidentes na “agonia da América espanhola”. E a solução teria efeito duradouro, com o Império brasileiro permanecendo, incólume, durante quase 70 anos. Por isso, o 15 de novembro de 1889 chegaria cercado de muita dúvida, amiga certeira dos projetos de futuro.

O império e o início da República conheceram, talvez, o mais importante escritor brasileiro: Machado de Assis. No livro Esaú e Jacó, mais particularmente no caso da “Confeitaria do Custódio”, Machado ri da pouca importância, já à época, da República. “Seu Custódio mal terminara de encomendar uma nova tabuleta para a sua tradicional ‘Confeitaria do Império’ quando soube do ocorrido. Pediu, então, para que o pintor interrompesse seu trabalho: “Só algumas das letras ficaram pintadas, – a palavra ‘confeitaria’ e a letra d. A letra o e a palavra ‘império’ estavam só debuxadas a giz”. Porém, para desespero de Custódio, justo dessa vez o pintor resolveu ser eficiente, e finalizou a placa. Frente à necessidade de uma nova, Custódio procurou o Conselheiro Ayres que sugeriu que o nome passasse para Confeitaria da República. Temeram os dois, entretanto, que pudesse ocorrer uma reviravolta e o título do  estabelecimento tivesse que ser novamente alterado. O Conselheiro sugeriu, então, o nome de “Confeitaria do Governo”, que se prestava afinal a qualquer regime. Concordaram, porém, que qualquer governo tem oposição, e que essa bem poderia quebrar a tabuleta. Aires arriscou ainda que Custódio deixasse o título original — Confeitaria do Império — e só acrescentasse “fundada em 1860″. Mas o proprietário achou que o mote o ligaria ao ” antigo”, o que naquela época de modernidades não soava bem. “Decidiram, por fim, pelo próprio nome do dono: “Confeitaria do Custódio”. E assim terminava a complexa conversação: “Gastava alguma cousa com a troca de uma palavra por outra, ‘Custódio’ em vez de ‘Império’, mas as revoluções trazem sempre despesas”. Fim da citação!

Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

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