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Lilia Schwarcz
Qual o tempo da crise ou quem administra esse grande hospital?
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2015 foi um ano marcado pela palavra crise, que virou léxico, repertório e argumento. Meus colegas economistas definirão melhor do que eu o que significou o longo desfile descendente de números que vimos passar nesse ano que terminou. Cientistas políticos saberão discorrer de forma mais precisa sobre as implicações dessa sucessão de escândalos, exemplos de corrupção e conchavos entre parlamentares que invadiram as páginas dos jornais desse ano, que insiste em não finalizar. Juntos, quem sabe, mostrarão como política e economia se fazem de maneira relacionada, e que a crise de uma explica a outra, e vice-versa ao contrário. O fato é que nós, brasileiros, vimos o país cair da posição de bola da vez para exemplo de nação desgovernada e em queda livre. É a famosa “crise”!
O termo crise tem por certo muitos significados. Sua origem pode ser encontrada no latim:crisis um momento de decisão, ou de mudança súbita. O léxico vem também do grego:krisis, ação ou faculdade de distinguir um momento difícil que pede por decisões. No jargão médico a palavra virou conceito, referindo-se a uma mudança brusca que se produz no estado de um doente, e que se deve à luta entre o agente agressor infeccioso e as forças de defesa de um organismo. Também é usada para o momento de manifestação aguda de uma afecção; uma crise de apendicite por exemplo. De toda maneira, trata-se de um contexto decisivo, que pode levar à cura ou à morte; à evolução de uma doença ou à sua extinção.
Essa não é a primeira e nem será a última vez que um termo escorrega da biologia e define a sociedade. O médico da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, Miguel Pereira, em discurso proferido em 1916 – portanto, exatamente um século atrás – ao caracterizar a zona rural do país, a chamou de “um imenso hospital”. Miguel Pereira era famoso por suas pesquisas em hematologia tropical, e, patriota, nessa circunstância referia-se ao necessário combate da doença de Chagas e de outras epidemias que infectavam o país de ponta a ponta. Referia-se, por certo, a esse imenso e ainda desconhecido “sertão”, mas igualmente às populações operárias e aos imigrantes que entravam nas cidades do país, sem qualquer proteção ou auxílio médico.
Carlos Chagas e membros da expedição São Gabriel no Rio Negro, Amazonas, 1913
Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.
Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.
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