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Lilia Schwarcz

O alienígena com um olho verde e outro cinza ou como ser herói por um dia

19 de janeiro de 2016

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A destreza mais admirável de David Bowie foi sua capacidade de se reinventar, de ser muitos e sempre tão diferente

Todo mundo já escreveu sobre ele; não há quem deixe de comentar, e não foram poucas as manifestações pelo mundo afora. David Bowie, aquele que parecia o mais imortal dos astros solares, faleceu no dia 10 de janeiro de 2016, ano que se inicia com tantas perdas na área da música. Foi também nesse ano, que mal começou, que morreu o grande compositor e maestro Pierre Boulez. Nesse caso, um habitante de outro planeta distante; um gênio da música clássica e de concerto.

Não sou, com certeza,  especialista de rock, crítica musical e muito menos mestre na carreira desses dois artistas. Mas, se me atrevo a escrever sobre um deles, David Bowie, é porque ele fez parte da minha formação; me surpreendeu muitas vezes, e me intrigou tantas outras. Essa era, aliás, sua destreza mais admirável: a capacidade de se reinventar, de ser muitos e sempre tão diferente.

Conheci David Bowie pela entrada dos fundos, digamos assim. Como ator!  A primeira vez que o vi foi no filme “Fome de Viver” (Tony Scott, 1983) —  quando ele atuou ao lado de Catherine Deneuve. Demorei para entender que o título não era metáfora, e que Bowie era mais que um mero ator. Na verdade, ele é o próprio canibal, no sentido de devorar tudo — comer os fortes — e voltar renovado; inspirado.

Foi na mesma época que assisti “Furyo” ; em seu título original: “Merry Christmas Mr. Lawrence” (Nagisa Oshima, 1983). Nesse filme, Bowie aparece lado a lado com outro ícone da música popular — Ryuichi Sakamoto –, e a ação se desenrola num campo de trabalhos forçados no Japão, durante a Segunda Guerra Mundial. O enredo escancarava duas culturas distintas – a da honra e a da sobrevivência – e mantinha uma insinuação velada, ao mesmo tempo tensa e latente: a atração homoerótica entre os representantes militares das duas nações em cena. Sakamoto não tocava, mas Bowie, propositadamente, “desafinava”. Muitas eram as batalhas envolvidas no filme; em guerra, vários jogos de diferença. Tantos, que achei por bem incluir o filme nos meus cursos de graduação em Antropologia na USP. Cada cultura é de certa forma etnocêntrica, e, na película, duas filosofias contracenavam, cada uma com sua verdade. Já o Bowie/ator era, para variar, um prisioneiro muito perturbador e corrompia formas de convivência possíveis, naquele contexto tão frágil.

Bowie faria outros filmes, mais ou menos acertados. O fato é que, desde então, passei a seguir essa figura longilínea, clara de pele e cabelos, com os dentes meio atravancados. Um detalhe, porém, sempre me chamou muita atenção: Bowie tinha um olho cinza e outro verde, o que, na minha imaginação um pouco contaminada pela linguagem da ficção científica, só poderia ser um sinal certeiro: ele viera de outro planeta. Anos depois tive a confirmação: Bowie era mesmo de Marte!

Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

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