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Faz 120 anos que ocorreu, no distante interior da Bahia, um levante popular que invadiu a imaginação dos brasileiros. Mais do que uma revolta isolada, Canudos anunciava a existência de muitos Brasis, no mesmo Brasil, e o descobrimento dos “sertões”, que acabaram virando metáfora ligeira para designar tudo o que não se conhecia ou encontrava-se afastado da civilização que a República inventou.
O fato é que, diferente da “modernidade” que os novos tempos prometiam, estouraram, em várias regiões do país, movimentos sociais que combinavam a questão agrária e a luta pela posse de terra com traços fortemente religiosos. Levantes como Contestado, Juazeiro, Caldeirão, Pau-de-Colher e Canudos representaram o lugar do encontro entre a mística e a revolta; um resultado pouco previsto do nosso processo de urbanização acelerada, e de desatenção com esse grande contingente populacional. Abandonados por uma República que fazia da propriedade rural a principal fonte do poder oligárquico, grupos de sertanejos buscaram transpor o abismo que os separava da posse da terra, teceram relações entre a história e o milenarismo, e sonharam viver numa comunidade justa e harmônica.
E foi em 1896 que começou o conflito armado de maior visibilidade da Primeira República, prontamente transformado em bode expiatório nacional: um cancro monarquista, diziam as elites reunidas na capital, e muito distantes da mentalidade desses sertões. Já em 1897, com a missão de cobrir os acontecimentos para “O Estado de São Paulo”, partiu convicto o jornalista Euclides da Cunha. Republicano de carteirinha, ele havia embarcado para a Bahia com a certeza de que a República derrotaria rápido essa “horda desordenada de fanáticos maltrapilhos”, acoitados num frágil arraial. Descobriu, porém, totalmente atônito, uma guerra longa e misteriosa, um adversário com enorme disposição para o combate, um refúgio sagrado, uma comunidade organizada e uma terra desconhecida para ele e, aliás, para boa parte da intelectualidade acastelada na cidade do Rio de Janeiro.
E foi justamente a partir do impacto profundo dessa descoberta, que Euclides mudou de ideia, e tornou-se um grande escritor. Em vez da certeza das teorias deterministas – que condenavam a “terra dos sertões” e “as raças dos sertanejos” – sua narrativa assumiu um tom de denúncia. O jornalista fez muito mais que uma reportagem de guerra: revelou o efeito das secas na paisagem arruinada do sertão baiano e a devastação do meio ambiente produzida pelas queimadas no semiárido nordestino; inscreveu na natureza uma feição dramática capaz de projetar imagens de medo, solidão, abandono; reconheceu no mundo sertanejo uma marca do esquecimento secular e coletivo do país. Lido alto, o trecho sobre a terra chega a sibilar, e conta uma trajetória diferente e comum de devatação da nossa natureza.
Em 1902 publicou “Os Sertões”, onde retomou a história da guerra contra Canudos com um enfoque ainda mais amplo. Euclides manteve porém o mesmo tom de indignação. Responsabilizou a Igreja, a República, o governo baiano e o Exército pelo massacre. Descreveu a guerra como um fratricídio, uma matança entre irmãos, com direito à decapitação dos prisioneiros, o calvário dos resistentes dizimados por fome, sede, doenças e pelos projéteis dos militares. Seu livro virou monumento.
Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.
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