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A figura da mãe negra virou tema central nas representações da escravidão produzidas no interior das sociedades escravocratas e mesmo fora delas. Em países como Cuba, Estados Unidos ou Brasil elas se converteram no lado romântico e sentimentalizado da escravidão, aparecendo de forma frequente em textos, mas também na cultura visual da época. O suposto era que, diferente da face violenta do cativeiro, elas – as amas, as nannies ou as mammies – representavam os laços de amor que uniam um senhor/a branco às suas amas de leite.
De tão veiculada, essa imagem acabou resumindo a própria compreensão da escravidão, sobretudo aqui no Brasil. Em nosso país, com o objetivo de contrabalançar o vexame que significava manter um sistema como esse, por tanto tempo e de forma tão disseminada, buscou-se difundir uma visão positiva, como se fosse possível prever apenas uma boa e pacífica relação. No senso comum, a versão dominante explicava que, como não tínhamos fazendas reprodutoras de escravos, à maneira do Sul dos Estados Unidos (o que, diga-se de passagem, também não é verdade) poderíamos fazer jus a uma “boa escravidão”, contrastada ao modelo “mercenário” norte-americano. Também a representação das amas de leite seria utilizada nesse sentido, alinhavando mais um argumento em prol do suposto lado “benfazejo” no cativeiro africano no Brasil.
A afirmação carece, porém, de lógica, na sua própria raiz: num sistema que supõe a posse de uma pessoa por outra, não há como imaginar qualquer lado positivo ou redentor. Criam-se sempre sociedades violentas, em que o castigo é rotina e a virulência do cotidiano corresponde à força da reação dos escravizados.
E não é preciso olhar longe para enxergar tão perto. Há todo tipo de violência circundando a profissão das amas de leite, que virou símbolo de afeto, mas também de ambiguidade. Essa é a sensação que fica ao observarmos, sobretudo nos dias de hoje, as inúmeras fotos de mães negras, distribuídas como cartões postais, ou incluídas em álbuns de família.
Créditos primeira linha: Frederico Ramos, Eugênio e Mauricio, Alberto Henschel / Acervo Fundação Joaquim Nabuco / Ministério da Educação
Créditos segunda linha: Alberto Henschel,Alberto Henschel e Anônimo / Acervo Fundação Joaquim Nabuco / Ministério da Educação
Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.
Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.
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