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Para o Ricardo Teperman que está sempre de vigília; política e cidadã
Hoje é dia de vice tomar posse no Brasil. Nessa nossa não tão longa, mas com certeza conturbada história republicana, vices, como escrevi na última coluna para oNexo, têm feito carreira. Mas deixei de mencionar um de nossos mais famosos vices: João Goulart. Ele talvez represente o exemplo mais distante de Michel Temer e, ao mesmo tempo, aquele cujo contexto político guarda mais pontos de contato com o momento atual.
Hora de voltar um pouco no tempo. Nos idos de 1961 estava no poder Jânio Quadros; um político de província, e sem fortes identificações partidárias. Jânio e Dilma têm basicamente nada em comum, se compararmos projetos políticos e sociais ou programas de governo. O contexto porém (coincidência perversa, ou não) guarda semelhanças alarmantes. Jânio mostrou conhecer mal as lideranças partidárias nacionais; teve dificuldades e desdenhou da oposição. Bateu de frente com o Congresso, com a imprensa, com o funcionalismo, com o vice-presidente da República. Acabou rompendo com todos.
A história que Dilma vem experimentando é muito outra. Mas sabemos que a presidenta também sofreu por centralizar decisões, dialogar pouco e viu o campo oposicionista crescer. Jânio, porém, (e esse é um imenso porém) guardava uma diferença estrutural e incontornável: ele não possuía qualquer compromisso com as instituições democráticas, e sentia-se incomodado e tolhido pelos limites constitucionais.
Se a comparação entre presidentes é muito falha e desequilibrada – e não faz jus aos projeto de cada um – o paralelo da relação com os vices é potente. A relação entre Jânio e Jango era distante, para não dizer nula. Já Dilma teve problemas com Temer mesmo antes de ser eleita. Há quem diga que os problemas começaram no final de 2002, quando Lula, já na condição de presidente eleito, desobrigou-se do acordo com o PMDB, a quem fora prometido o Ministério de Minas e Energia. Quem ganhou a vaga foi Dilma: história longa; memória curta.
Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.
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