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Exatos 200 anos atrás chegava ao Rio de Janeiro um grupo de artistas franceses, hoje conhecidos sob a designação vistosa de “A Missão Artística Francesa de 1816”. Esse é um caso flagrante de como, muitas vezes, certos nomes e expressões se impõem diante dos documentos, transformando-se, eles próprios, em realidade; aliás, acima e para além da danada da realidade.
Conta a história que, em pleno contexto do Reino Unido, quando D. João e sua Corte andavam estacionados em sua colônia tropical, fugidos da guerra com a França, aportava por aqui um grupo de artistas, hoje bastante renomados. Faziam parte do ilustre coletivo, entre outros, Joaquim Lebreton (o líder do grupo, ex-diretor do Louvre e membro do Instituto de França), Jean-Baptiste Debret (primo de Jacques-Louis David, o grande artista da corte de Napoleão), Nicolas-Antoine Taunay (professor do Instituto de França e pintor de paisagem), Grandjean de Montigny (arquiteto do Instituto).
Como se vê, o grupo era bastante afinado com uma posição política que, digamos assim, nada combinava com a do Regente D. João. Todos eles faziam parte, de uma forma ou de outra, das lides do poderoso Napoleão Bonaparte, que acabava de ser definitivamente deposto pelo Congresso de Viena reunido em 1815.
Hora de olhar para a história e estranhar. Por que será que D. João contrataria pintores franceses para representar sua colônia tropical? E por que selecionar artistas acostumados a trabalhar para seu inimigo, Napoleão Bonaparte? Ao que tudo indica, a iniciativa partiu dos próprios artistas franceses que foram apoiados pela corte portuguesa apenas quando efetivamente chegaram ao Brasil.
Mas vamos começar pelo começo. Em primeiro lugar, é fácil notar como a situação dos integrantes do grupo não era das melhores em 1816: Lebreton acabara de perder o emprego tanto no Louvre como no Instituto, onde ocupava o cargo de presidente da classe de Literatura e participava da classe de Belas Artes; Debret não detinha mais seu cargo no ateliê de David e assistira seu único filho falecer; Montigny fora demitido da posição de arquiteto na corte da Westfália, onde reinava o histriônico irmão mais novo de Napoleão. Já Taunay, viu seus clientes sumirem e passou a temer por sua demissão no Instituto de França, onde era vice-presidente da classe de Belas Artes. Enfim, razões não faltavam e quem sabe nossos artistas estivessem, mesmo, motivados pela famosa expressão do “fazer a América”.
Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.
Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.
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