Coluna

Lilia Schwarcz

Metáfora de relógios e relojoeiros, ou como regular os ponteiros em relação à política de delação

06 de julho de 2016

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Ideias do escritor Machado de Assis e do historiador Kenneth Maxwell podem explicar o descompasso do tempo moderno

Machado de Assis escreveu uma série de crônicas usando a imagem forte dos relógios e do relojoeiro. Um primeiro suposto básico era que esse profissional atuava como um crítico de si mesmo. Segundo “o Bruxo do Cosme Velho” – alcunha que o escritor ganhou, entre outros, por conta da referência à rua e ao bairro em que morava – relojoeiro é aquele que “descrê do seu ofício”, por nunca ter certeza de estarem corretos os ponteiros do seu mostrador. Sofre com os minutos que faltam, mas também com aqueles que excedem.

Mas Machado não ficou apenas como profissional dessa arte; transformou os próprios relógios em símbolos. Eles funcionavam para definir uma espécie de estética da política, bem como as práticas mais cotidianas  de nossos políticos nacionais.

Num texto escrito no dia 5 de abril de 1888 – muito próximo da data da Lei Áurea que decretou o final “atrasado” da escravidão no Brasil -nosso Bruxo fez das suas profecias. Ele não tinha como saber, mas pouco depois desse ato (que foi o mais popular e também o último do Império), em um ano e meio aproximadamente, a própria monarquia cairia no Brasil.

Esses eram, sem dúvida, momentos de muita instabilidade e que pediam políticos “pontuais” e pouco afeitos à influência das “horas alheias”. Mas o que Machado descreve nesse texto, incluído na série de crônicas “Bons dias”, é em tudo diferente: esses endiabrados instrumentos de medição do tempo andavam rebeldes, não concordando mais entre si. Conforme explica o literato: “os relógios discrepam e fica-se sem saber de nada, porque tão certo pode ser meu relógio como o do meu barbeiro”. Com sua famosa verve irônica, conta Machado que um político do Partido Liberal estava “encasacado” para sair pois “a hora pingava”. Foi quando passou o carro do imperador e ele se deu conta de que seu relógio estava adiantado ou, então, que era “Sua Alteza que se atrasara”. E pergunta o colunista: “Quem os porá de acordo?”

O fato é que relógios serviam para Machado descrever a atitude “pouco pontual” dos políticos do Império. Não havia consenso com relação “ao momento correto” para agir, assim como eles não se mantinham na “mesma hora” por muito tempo.

Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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