Coluna

Lilia Schwarcz

Agruras da tocha olímpica no Brasil ou como bem ‘inventar uma tradição’

19 de julho de 2016

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Símbolos não são aleatórios e a chama dos gregos continua a encantar a utopia de uma irmandade internacional, por mais que essa realidade encontre-se, muitas vezes, distante

Os Jogos Olímpicos de 2016 só começam no dia 5 de agosto, mas a tocha que antecipa e fecha a festa internacional já vem percorrendo o Brasil, de ponta a ponta. O trajeto que começou em Brasília, no dia 3 de maio, vem seguindo uma rota extensa, de cerca de 20.000 quilômetros, com direito a muitas escalas exóticas. A chama olímpica tem recebido, aliás, tratamento vip, com estadia garantida nos principais cartões postais do país. Neles aparecem reveladas a pujante natureza tropical, mas também os vários povos e costumes desse nosso imenso território, de proporções continentais.

No entanto, como nem sempre o certo ganha do incerto, a tocha também acabou presenciando cenas de pobreza e carestia (mesmo que disfarçadas pela pretensa “alegria” da população), além de ter vivenciado alguns incidentes um tanto constrangedores. Numa agenda que incluiu a apresentação do que há de melhor por aqui, o tema da preservação ambiental não foi, com certeza, o ponto forte. Causou verdadeira comoção a morte da onça Juma, um dos mascotes dos batalhões de Manaus. Por lá, os felinos são presença cativa nos desfiles militares, a despeito da prática ser condenada por veterinários e biólogos. Espécie incluída pelo Ibama dentre aquelas ameaçadas de extinção, onças são animais que exigem vastas áreas para sobreviver e para que possam caçar presas como jacarés e capivaras. Pois bem, como todo animal selvagem, Juma não se comportou de maneira “domesticada” quando teve que posar ao lado da tocha olímpica: ficou nervosa com tanto movimento e achou por bem evadir-se. Foi recapturada na base de tranquilizantes, mas, mesmo assim, conforme alegaram os militares, ela avançou sobre um soldado. Segundo relato oficial, “como procedimento de segurança e visando proteger a integridade física dos militares e tratadores”, Juma foi abatida com um tiro de pistola no Centro de Instrução de Guerra na Selva. Fim da história; da onça pelo menos.

Gerou também polêmica a passagem da tocha por locais de turismo ecológico. O brilho da chama olímpica foi levado até a região amazônica dos botos cor de rosa; outra espécie ameaçada com a extinção. Nesse caso, o programa incluiu boiar ao lado dos mamíferos, que ficaram estressados e sofreram com o excesso de fotos. Até mesmo nadar em águas cristalinas e fazer rapel na Chapada Diamantina; percorrer os paradisíacos Lençóis Maranhenses ou fechar o Parque Nacional de Chapada dos Guimarães acabaram sendo caminhos e descaminhos da chama olímpica em terras nacionais. Vale tudo quando o objetivo é divulgar a natureza “virgem” do Brasil e dar um jeito de contrabalançar a representação que hoje impera sobre nós no exterior: a grave crise política e econômica que se abate sobre o país. A meta pareceu ser, também, contrabalançar o medo das epidemias do vírus zika e da violência urbana, que vêm assustando atletas e turistas. Em seu lugar entraram fotos e vídeos anunciando uma nação de águas puras, animais selvagens e simpáticos (quase sempre) e uma população que, mesmo sem muitos recursos, é muito receptiva.

O fato é que tem vingado a imagem exótica e tropical do país, tantas vezes utilizada em projetos patrióticos, ufanistas e de cunho nacionalista. Eventos como as Olimpíadas são feitos de atletas, mas também de outro tipo de matéria prima: a emoção que envolve comemorações como essas. Tal qual um ritual, e dos bons, elas são realizadas visando, sobretudo, a comoção geral. Por isso mesmo, boa parte da eficácia do espetáculo vem da manipulação simbólica de uma série de elementos, que, para que sejam eficientes, precisam fazer parte do conhecimento acumulado de todos. E, nesse sentido, nada como a história, que tem o dom de transformar qualquer novidade numa boa e legitimada tradição.

Foi o historiador inglês Eric Hobsbawm quem chamou a atenção para o conceito de “invenção da tradição” e sobre seus usos políticos. Segundo ele, a expressão demonstra como a história pregressa é com frequência utilizada com o fito de estabelecer noções de perpetuidade e de continuidade para fatos, muitas vezes, datados no tempo ou de passado espúrio.

Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

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