Coluna

Lilia Schwarcz

Sobre o visível e invisível

16 de janeiro de 2017

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Fotografias, pinturas, gravuras, desenhos têm a capacidade de fixar e de transformar em estereótipo parado no tempo, o que nada tem de óbvio ou estável. Fazem mais: escondem o ruído e passam a sensação de que tudo está em seu lugar e onde há de sempre estar

Muitas vezes, fotos estampadas nos jornais são até mais violentas quando não pretendem ser. Em alguns casos, é justamente a pretensa “naturalidade” dessas imagens  que acaba  revelando a violência da situação. Em outros, é a invisibilidade que deixa evidente a carga de humilhações presente nessas representações visuais.

Cena 1. A invisibilidade de nossa população encarcerada e as cuecas.

Começo lembrando de uma foto que muita gente olhou, mas também não viu. Não consigo esquecer de um registro visual que, na minha opinião, representa o panorama carcerário que vivenciamos no país. A violência das insurreições, os requintes nas formas de assassinato, as péssimas declarações do ministro da Justiça, a reforma conservadora proposta pelo governo, o silêncio constrangedor do presidente; tudo junto, resulta num retrato alarmante. São muitos os  textos que analisaram a situação, bem como as imagens veiculadas na mídia. Mas gostaria de refletir sobre uma foto em particular.

Sob um sol escaldante, prisioneiros, cujas faces não podemos ver, carregam seus colegas mortos. A carga é pesada e eles, com sua pouca roupa, vergam seus corpos e trazem os pés descalços ou apenas protegidos por frágeis sandálias. Suas vestes são poucas; só não estão nus, pois usam cuecas – sempre de mesmo formato e com um elástico idêntico –, o que apenas comprova como a vestimenta faz parte do exíguo uniforme usado pelos presos da penitenciária de Manaus.

Choca ainda mais o que o fotógrafo não teve a intenção direta de mostrar. Nossos olhos procuram por algum detalhe nos corpos dos prisioneiros que jazem inertes – cobertos por um saco preto. Já aqueles que os carregam estão quase camuflados, por conta das nossas políticas de representação visual que não conferem o estatuto de pessoas a eles. São mesmo invisíveis. São somente presos; nesse caso, sobreviventes de um “massacre interno”. Tão “selvagens”, conforme declaração de um funcionário da penitenciária, como os cadáveres que levam aos ombros.  

Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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