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Lilia Schwarcz

Tragédia e triunfo: sobre o discurso de Trump

30 de janeiro de 2017

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(ou notas acerca do Museum of African American History & Culture)

Washington vem roubando o noticiário dessas últimas semanas. Se ninguém duvidava do calibre do discurso de posse de Trump, é forçoso reconhecer que o presidente fez a proeza de se superar. Com frases curtas, ele inaugurou sua gestão com mensagem e estilo que lembram, de perto, as retóricas fascista e nazista: prometeu  a “terra da promissão” para quem nela nasceu. No palanque, o presidente eleito falou como candidato. Afinal, o paraíso ficava reservado (apenas e tão somente) aos “naturais” daquele país. 

É no mínimo estranho imaginar  – observando a imagem altiva do líder republicano -, que ele se veja e entenda como “nativo” daquele país.  Com sua figura e estereótipos caucasianos, dos cabelos até a ponta dos pés, o novo presidente americano vacinou uma certa imigração, e excomungou outra, determinando quem é estrangeiro no país (e quem não). “- Se tiver um emprego a oferecer”, dizia o republicano em brado forte, “melhor dá-lo a um norte-americano”.

Mas todo lado tem mais outro. No dia seguinte, nova manifestação invadiu as ruas da capital dos EUA. Estou me referindo à bela “marcha das mulheres contra Trump”; ato cívico que reuniu ativistas, celebridades, famílias, personagens anônimos, cidadãos indignados e mostrou, na base da democracia, o que significa governar com 52% de rejeição. Já Trump e seus gestores revelaram não se comover com esse tipo de demonstração. Ao contrário, coerente com a retórica bélica anunciada, declararam guerra à classe dos artistas e passaram a autorizar uma ofensiva a refugiados e imigrantes, cujos rasgos ao pacto liberal são evidentes.

Pelo menos um detalhe passou despercebido dentre as diferentes demonstrações que vêm sacudindo a principal avenida de Washington DC: um edifício que mais se parece com um navio assombrado, feito de metal cor de cobre e com formas que lembram ângulos retos e pontiagudos. Lá estava ele, imponente, bem na lateral da longa via que cruza a cidade perpendicularmente. Sua arquitetura evoca a memória de um navio negreiro, desses utilizados na época do tráfico escravocrata que tomou força em inícios do século 16. Sua fachada, quando observada de perto, evoca ainda outros significados: destaca-se a partir de pequenos detalhes uma delicada estilização, no formato de miçangas. Esses objetos eram utilizadas como moedas de troca, mas também simbolizam a hospitalidade dentre as nações africanas que foram levadas, de maneira forçada, para os EUA.

Estou me referindo ao imponente Museum of African American History & Culture, inaugurado em setembro de 2016, talvez como um dos últimos legados da gestão de Barack Obama, cujos traços, o novo governo tem feito questão de apagar.

Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

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