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Em tempos de distopia, só mesmo um filme infantil para prometer um mundo feito de bons prognósticos, modelos éticos e saídas morais. Apenas no terreno saudável do desenho animado parece existir espaço para imaginar uma heroína com atitudes democráticas e que não precisa encontrar um príncipe encantado para ganhar uma legenda final, do tipo: “viveram felizes para sempre”.
Estou me referindo a “Moana”, o mais recente filme dos estúdios Disney, que traz uma princesa feminista como protagonista; uma jovem polinésia que embarca sozinha em uma viagem pelo Pacífico procurando assim mudar o destino de seu povo.
Não é que faltassem, até então, heroínas e princesas com atitudes mais arrojadas ou até guerreiras. Basta lembrar, para ficarmos no caso da Disney, do exemplo de “Mulan”, que se vestia como homem, batalhava melhor que eles, mas não escapou do “derradeiro destino”: felicidade, e daquelas duradouras, apenas com um marido ao lado!
“Moana” também não é totalmente fora da curva quando comparada a outras protagonistas. Ela lembra figuras como Tiana, de “A princesa e o sapo”, com a diferença de que esta última é feminista “até” (…) encontrar seu sapo em forma de príncipe. Há também outra diferença fundamental; nesse último filme é absolutamente enervante a maneira como aparecem estereotipados, e até demonizados, todos os elementos de religião de matriz africana.
Prefiro assim voltar à nossa personagem da polinésia. Ela também poderia evocar Ariel, a heroína de “A pequena sereia” que ousa enfrentar seu pai, Netuno, pois tem certeza de que os humanos não são tão ruins como se pensa. Mas, ainda assim, sucumbe diante da autoridade e do amor masculinos, expressos pelo sempre belo e galante príncipe Eric.
Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.
Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.
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