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Lilia Schwarcz

Quando a exceção não confirma a regra

27 de março de 2017

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O caso Bruno e a má sorte dos egressos do sistema penitenciário brasileiro

Tempos de crise afetam a todos. Mas há setores que sofrem ainda mais; sobretudo aqueles que vivem nas franjas do sistema e são objeto de desatenção até em momentos de pretensa “normalidade”.

Esse é o caso da imensa população carcerária brasileira ou daqueles que conseguem deixar as prisões mas sofrem com a falta de oportunidades em um mercado de trabalho cada vez mais castigado pelo encolhimento da nossa economia.

É certo que, vira e mexe, uma notícia incendeia os ânimos e atiça a curiosidade mórbida de todos nós. Nessas ocasiões, as mídias costumam destinar um tratamento urgente e veloz a assuntos que pedem calma e constância; não apenas circunstância.

Foi assim com a crise prisional do início deste ano de 2017, que deixou um saldo de 130 detentos mortos, apenas no mês de janeiro. Foi também assim com a notícia da libertação do goleiro Bruno, que, há poucos dias, foi visto distribuindo autógrafos, fazendo selfies, e sendo contratado por um time de futebol da segunda divisão. Tudo isso após comover o país por conta dos requintes de brutalidade do crime que cometeu, e de ter dado jeito de fazer desaparecer o corpo da mãe de seu filho – a qual, ao que se sabe, foi esquartejada e depois devorada por cães; fato que em nada abalou a quantidade de holofotes que cercaram o personagem. 

Sem demonstrar grande preocupação, ou evidenciar maior sinal de constrangimento, Bruno Fernandes de Souza – que foi condenado a mais de 22 anos de cadeia, cumpriu apenas sete e ganhou liberdade provisória há quatro semanas –, quando indagado sobre seu crime, apenas respondeu: “erros acontecem!”. Acontecem sim, mas nesse caso o Estado tem a obrigação de mostrar que a justiça é universal e pune com o mesmo rigor um ídolo ou um cidadão comum.

Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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