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Existem determinadas situações em que o que poderia ser um encontro resulta num imenso desencontro. Foi exatamente isso que ocorreu quando a Academia Carioca de Letras resolveu homenagear a autora do livro “Quarto de despejo” (1960) em 17 abril deste ano em um evento no Rio de Janeiro.
Conta a história, que o jornalista Audálio Dantas foi fazer uma matéria sobre a região do Canindé e deu de cara com Carolina Maria de Jesus. Moradora da favela local, afrodescendente, ela esbravejava contra as invasões e a violência que corriam soltas por lá. Digna e firme, ameaçava: “Vocês vão ver, vou botar todos no meu livro”.
A palavra “livro” carrega até hoje um imenso valor real e simbólico entre nós, e, naquele contexto, não foi proferida em vão. Num país em que, a despeito dos avanços dos últimos dez anos, o analfabetismo funcional ainda atinge 27% dos brasileiros , possuir uma obra impressa em casa já é motivo de distinção. Por isso, não poucas vezes, exemplares aparecem expostos nas salas de estar como se fossem troféus. E se tal situação é verdadeira para parte significativa da nossa população, o que dizer então de uma trabalhadora negra, que até então atuava como catadora de papel, e que passou a esbravejar, anunciando que colocaria tudo que sabia no papel e publicaria em breve sua obra impressa?
O certo é que a discrepância entre a ameaça e a realidade foi o suficiente para que o jornalista ajudasse Carolina a ir em frente nesse seu projeto, que se transformou num livro essencial, um clássico, atualmente traduzido em 24 idiomas.
E não há nessa constatação qualquer favor ou prêmio de consolação. Há inúmeras passagens do livro onde logo se reconhece a qualidade do texto: “Deixei o leito às 4 horas para escrever. Abri a porta e contemplei o céu estrelado. Quando o astro-rei começou despontar eu fui buscar água. Tive sorte! As mulheres não estavam na torneira. Enchi minha lata e zarpei (…) Preparei a refeição matinal. Cada filho prefere uma coisa. A Vera, mingau de farinha de trigo torrada. O João José, café puro. O José Carlos, leite branco. E eu, mingau de aveia. Já que não posso dar aos meus filhos uma casa decente para residir, procuro lhes dar uma refeição condigna. Terminaram a refeição. Lavei os utensílios. Depois fui lavar roupas. Eu não tenho homem em casa. Sou só eu e meus filhos. Mas eu não pretendo relaxar. (…) Dizem que falo muito bem. Que sei atrair os homens. (…) Quando fico nervosa não gosto de discutir. Prefiro escrever. Todos os dias eu escrevo. Sento no quintal e escrevo”.
Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.
Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.
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