Temas
Compartilhe
Não sou nenhuma especialista em plantas. Não busco, neste texto, tratar de uma análise científica sobre elas. Aqui, descreverei uma breve e recente observação sobre vitalidade e fé. Falo do lugar de quem vive a vida se deslocando no tempo que escorre entre os sopros do presente e as grandes conexões que o passado nos traz.
Dia desses conversando com um amigo, o Mateus, sobre as plantas das casas das nossas avós, percebemos, em algum instante em que a conversa batia tão longe, que, na verdade, falávamos de vida e fé, sobre como aprendemos a ter fé, que não necessariamente tem a ver com uma religião. Apenas aprender a ter fé, ter os primeiros contatos com ela.
Por sermos ambos criados por avós, ele materna e eu paterna, que amam plantas, as noções de conexões energéticas e respeito pela natureza sempre foram aprendizados transmitidos por meio de compostagem, saber a hora de regar, quando uma vida não cabe mais num vaso de plástico e os avisos que a cor das folhas nos dão que podem ser muitas coisas, inclusive a necessidade da luz solar. E é aí que a gente aprende que qualquer ser vivo precisa de luz para continuar respirando. É no cultivo diário das plantas que aprendemos a ter carinho com qualquer ser vivo, sem papo “gratiluz”. Nesses tempos tão estranhos em que vivemos, até a palavra “gratidão” vira coisa da classe média branca brasileira, quando, na verdade, o que deveria ser recebido é o seu verdadeiro significado. Essa discussão fica para outro dia.
Quando pequena, minha avó me ensinava a pingar um pouquinho de leite num copo de água e umedecer, com um tecido feito de algodão, as folhas das plantas que moravam dentro de casa. Adorava essa função nos finais de semana, principalmente porque não podia desperdiçar nenhuma gota da composição e a saída era gastar o que sobrou nas plantas que tinham na casa da nossa vizinha Cida, que era onde, além de fortalecer esse exercício de sensibilidade, eu aumentava o meu repertório da banda Raça Negra. Só quem viveu musicalmente, de verdade e intensamente, o final dos anos 1990 e o início dos anos 2000 sabe a emoção com que as nossas tias cantavam, faxinando as suas casas nos finais de semana, com um copo de cerveja numa mão e a vassoura na outra, a música “Preciso ter alguém” ou “Correnteza de emoção”. Silêncio pelas dores grudadas no coração das nossas tias que nem mesmo os produtos mais eficientes de limpeza conseguiam remover.
Mas o tempo passa para todo mundo e perceber isso por meio das relações com as plantas é interessante. Pela primeira vez estou acompanhando uma pessoa envelhecer de verdade, estou vendo a primeira crise política (em geral) do nosso país, sou a primeira pessoa da minha família materna a entrar na universidade. São muitos ineditismos experimentados de uma só vez. O envelhecimento da minha avó, dona Zilda, percebi não pelas dores que ela carrega em seu corpo desde que me entendo por gente, mas porque ela não molha mais as plantas com tanta frequência de antes, porque ela não sabe mais dizer, ao certo, o nome de todas as plantas que existem no jardim dela. Curiosamente, elas continuam bonitas, vivas e brilhantes.
Yasmin Thaynáé cineasta, diretora e fundadora da Afroflix, curadora da Flupp (Festa Literária das Periferias) e pesquisadora de audiovisual no ITS-Rio (Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro). Dirigiu, nos últimos meses, “Kbela, o filme”, uma experiência sobre ser mulher e tornar-se negra, “Batalhas”, sobre a primeira vez que teve um espetáculo de funk no Teatro Municipal do Rio de Janeiro e a série Afrotranscendence. Para segui-la no Twitter: @yasmin_thayna
Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.
Navegue por temas