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Lilia Schwarcz
Práticas de subalternidade: uma visita ao ateliê de Diamantina
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Segundo a crítica norte-americana Susan Sontag, a “fotografia nasceu para mentir”. Desde a origem da técnica, seus profissionais prometiam milagres: branqueavam ou (raras vezes) escureciam os personagens; faziam o dia parecer noite e vice-versa; criavam um céu estrelado ou cheio de nuvens, e, ainda mais, eram capazes de introduzir ou cortar uma série de elementos.
Por essas e por outras é que, não poucas vezes, o que julgamos ser o resultado final, ou o testemunho “verdadeiro” de uma foto, é antes um processo. Processo que inclui operações como nuançar, elidir ou até apagar registros. A fotografia tem, pois, poder de “feitiço”: produz efeitos que tornam “visíveis” certos elementos e “invisíveis” outros tantos.
São muitos os exemplos que servem para ilustrar esse tipo de afirmação. Gostaria de me concentrar, porém, em apenas um, e que pode ser visto numa exposição recém-aberta no Instituto Moreira Salles no Rio de Janeiro. Estou me referindo à mostra em torno da obra do fotógrafo Chichico Alkmim, que viveu em Diamantina, Minas Gerais, de 1886 a 1978, e manteve um ateliê desde o ano de 1912. São 5.500 negativos de rara beleza e que têm o poder de carregar o público contemporâneo rumo a um Brasil do pós-escravidão, um país republicano e sem escravos legais, que prometia a inclusão mas que entregou muita exclusão social.
A clientela do nosso fotógrafo parece ser não só variada, como bem animada. Em seu acervo estão, em porções equilibradas, a paisagem mineira, cenas das elites e da sociabilidade local, o cotidiano de uma alfaiataria, a organização das escolas, freiras e padres com suas vestes imponentes, as ruas da pacata cidade, e muitos retratos das gentes de Diamantina.
Dentre os clientes de Chichico constam não apenas os proprietários locais ou aqueles mais aquinhoados. O fotógrafo flagra com suas lentes uma população afrodescendente, que já lutara e conquistara o direito à liberdade. Por isso, em vez de aparecerem de forma vitimizada, esses clientes posam de maneira orgulhosa. Em algumas das fotos aparecem sorridentes, em outras mais tristes. O certo é que estão sempre comprometidos com as imagens que pretendem legar.
Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.
Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.
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