Temas
Compartilhe
A história é uma disciplina definida por sua capacidade de “lembrar”. Poucos se “lembram”, porém, de como ela é capaz de “esquecer”. Há também quem caracterize a história como uma ciência da mudança no tempo. Quase ninguém aponta, no entanto, sua genuína capacidade de reiterar. E a história brasileira não escapa dessas ambiguidades fundamentais: se ela é feita do encadeamento de eventos que se acumulam e evocam alterações substanciais, também anda repleta de lacunas, invisibilidades e esquecimentos. Além do mais, enquanto na sucessão cronológica do tempo destacam-se as alterações cumulativas de fatos e ocorrências, não é difícil notar, também, a presença de problemas estruturais que permanecem como que inalterados e assim se repetem, vergonhosamente, na nossa história nacional.
Nesta lista seria possível incluir os racismos, o feminicídio, a corrupção, a homofobia ou o patrimonialismo. Mas pretendo tratar aqui de um tema específico, o qual, de alguma maneira, dá conta de todos os demais: a nossa tremenda e contínua desigualdade social. Desigualdade não é uma contingência ou um acidente qualquer. Também não é uma decorrência “natural” e “imutável” de um processo que não nos diz respeito. Ao contrário, ela é consequência de nossas escolhas – sociais, educacionais, políticas, culturais e institucionais – que têm resultado numa clara e crescente concentração dos benefícios públicos.
Nossa persistente desigualdade não provoca apenas a acumulação de renda nas mãos de um grupo limitado; faz com que a saúde e a educação de qualidade virem benefícios para poucos. Segundo dados colhidos pelo IBGE, em conjunto com a Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) – que analisaram as condições de vida dos brasileiros – a fatia da renda nacional apropriada pelos 10% mais ricos caiu nos últimos anos de 46% para 41% . No entanto, o pedaço dos 50% mais pobres cresceu de 14% para 18%.
Já as pesquisas de Marc Morgan Milá, um economista irlandês e discípulo de Thomas Piketty, indicam que os governos brasileiros, na prática, jamais optaram por enfrentar a desigualdade social no Brasil. Segundo o investigador, ela é maior do que se supunha , com uma imensa concentração de renda retida no topo da pirâmide social. Segundo a investigação, o grupo que representa os 10% mais ricos da nossa população acumula mais da metade da renda nacional. Dentre os anos de 2001 e 2015, essa fatia da população teria visto sua renda crescer de 54% para 55%.
Segundo os cálculos de Morgan, a renda apropriada pelos 50% mais pobres também subiu nos últimos anos; de 11% para 12% do total. No entanto, 40% da população brasileira encolheu sua renda de 34% para 32%.
Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.
Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.
Destaques
Navegue por temas