Coluna

Yasmin Thayná

Ele nos ensina a ter alma no olho

18 de setembro de 2017

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A obra de Zózimo Bulbul é uma bússola para o nosso fazer cinematográfico

Antes de começar a escrever esse texto, coloquei Kulu Sé Mama para tocar, aquele disco do John Coltrane. Aconselho que você o escute. Lendo este texto ou indo trabalhar dentro de um transporte público apertado. Você pode ter uma viagem inesquecível. Pode até ver o que o cotidiano, às vezes, esconde de nós. 

Coloquei o disco para escrever esta coluna porque foi ele quem apresentou a obra de arte mais visceral e que me protege até hoje: o filme “Alma no olho”, de Zózimo Bulbul. Outra dica: seja você quem for, se dê a chance de assistir a esse filme. A única coisa que é necessária para vê-lo do jeito mais fiel é ter um coração aberto.

Não imagino esse filme, rodado em 1974, com outra música.

Foi exatamente assim que conheci Zózimo. Era uma noite de verão, na Tijuca, zona norte do Rio. Estávamos em um bonde de 12 pessoas, a maioria mulheres, discutindo o que viria a ser o “Kbela”, filme que escrevi e dirigi. Fazíamos, naquela noite, uma primeira leitura do roteiro do filme, que pretendíamos rodar em poucos dias. No meio da conversa, o diretor de comunicação do filme, Bruno F. Duarte, deu play em um filme dizendo que poderia ajudar a construir algumas imagens.

Eu chapei. Nunca tinha visto uma coisa parecida no cinema. Aliás, nunca tinha visto um filme que dissesse tanta coisa sem que o protagonista dissesse uma palavra. Ali, entendi que o cinema pode mais e que o que mais me fascinava nessa história de fazer cinema era a experimentação mesmo, coisa que a Escola Livre de Cinema de Nova Iguaçu já tinha despertado dentro de mim. Ali, vendo aquelas imagens crescendo na tela, vi uma possibilidade materializada.

Yasmin Thaynáé cineasta, diretora e fundadora da Afroflix, curadora da Flupp (Festa Literária das Periferias) e pesquisadora de audiovisual no ITS-Rio (Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro). Dirigiu, nos últimos meses, “Kbela, o filme”, uma experiência sobre ser mulher e tornar-se negra, “Batalhas”, sobre a primeira vez que teve um espetáculo de funk no Teatro Municipal do Rio de Janeiro e a série Afrotranscendence. Para segui-la no Twitter: @yasmin_thayna

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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