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Lilia Schwarcz

Uma história de mosquitos: febre amarela ontem e hoje

12 de fevereiro de 2018

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Desde o começo do século 20 até os tempos atuais, além da doença em si, um outro problema persiste: a incapacidade do governo de informar a população

Professor que é professor tem sempre um bom exemplo guardado debaixo da manga. Quando queria provar a importância da vontade política, usava com frequência o mesmo episódio: o combate à febre amarela. Meu argumento, hoje falível, era o seguinte: como todo mundo queria acabar com a epidemia, ela foi debelada, e em tempo recorde, no Brasil de inícios do século 20.

Mal sabia que minha retórica tinha seus dias contados. A febre amarela voltou a ser uma realidade nacional, e vem causando a mesma sensação de medo e desamparo que assolou os cariocas nos idos de 1904. Naquela época, a cidade do Rio de Janeiro, então capital do país, contava com 800 mil habitantes e já era considerada perigosa. Mas não pelas mesmas razões atuais; o maior problema se concentrava nas epidemias que chegavam no cargueiro dos navios ou desenvolviam-se de maneira endêmica. Peste bubônica, tuberculose, varíola, tifo, cólera, malária e febre amarela faziam parte do cardápio de enfermidades que mais matavam no começo da Primeira República. De tão presentes, elas acabaram manchando a fama desta terra tropical, constituindo-se numa sorte de vergonha nacional.

Rodrigues Alves, mais conhecido pelo revelador apelido de Soneca, era, então, o presidente do país. Para tentar desmentir sua alcunha, e tratar de melhorar a imagem pública da capital, ele decidiu atuar, então, em duas frentes: tratou de embelezar a cidade e de combater as epidemias que grassavam como erva daninha no solo carioca.

Com o objetivo de dar um jeito na cidade, e de transformá-la num cartão postal, Alves chamou Pereira Passos, que, dentre outras medidas, tratou de expulsar a pobreza para os arredores da cidade. O engenheiro arquitetou e executou um projeto urbano de grandes proporções, que ficou popularmente conhecido como “o bota-abaixo”: destruiu casas populares e em seu lugar criou avenidas largas, onde a elite passeava e praticava a arte do ver e de ser visto.

Já Oswaldo Cruz selecionou três das doenças que mais acometiam os brasileiros – a peste bubônica, a varíola e a febre amarela – e passou a idealizar uma espécie de missão saneadora, que implicava, entre outras medidas, uma campanha de vacinação. O cientista se esqueceu, porém, de um “pequeno” detalhe: avisar e instruir a população!

Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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