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Lilia Schwarcz

A alegoria dos 4 continentes, ou como ser para sempre o país do futuro

07 de maio de 2018

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Por meio das artes visuais, ao longo dos séculos naturalizou-se uma visão eurocêntrica e colonial acerca dos diferentes povos. Uma forma dileta eram as alegorias dos quatro continentes

Desde o século 16, uma série de países europeus, que julgaram por bem chamar a si mesmos de “Velho Mundo”, inscreveram em mapas, tapeçarias, desenhos e telas não só a variedade de povos que foram “encontrando”, na era dos assim chamados “descobrimentos”, como seus próprios preconceitos. Criaram visualmente um mundo que condizia com sua percepção de si e dos demais povos. Nas laterais dos mapas, geógrafos regiamente pagos não só imaginaram um universo em que a Europa se localizava bem ao centro, e na parte superior do planeta, como delinearam com traços firmes fronteiras ainda não exploradas ou as caracterizaram apenas como “terras ainda não descobertas”. O suposto é que o mundo estava lá, à disposição, e bastava classificá-lo, tendo a Ocidente como régua e compasso.

FOTO: ACERVO DIXSON LIBRARY, NEW SAUCES WALES [ARTS RD, MADGWICK NSW 2350, AUSTRÁLIA]

Claes Janszoon Visscher. Nova Totius Terrarum Orbis Geographica Ac Hydrographica Tabula Autore, 1652.

Com a “descoberta” do, assim chamado, “Novo Mundo” – que representou um “desencontro” de grandes proporções –, a curiosidade europeia correu do Oriente para os trópicos, com sua natureza paradisíaca de um lado, mas suas “gentes” estranhas, de outro. Essas seriam populações que praticavam a poligamia, andavam nuas e tinham o “mau costume”, segundo relatos dos viajantes seiscentistas, de comer carne humana. Sabemos que esses não eram hábitos “canibais” mas sim “antropofágicos” e, portanto, faziam parte de uma lógica ritual e não alimentar: eram formas de comunicação de povos que viviam articulados em rede. No entanto, a “curiosidade europeia” não chegava a tanto: preferia julgar e condenar do que, de fato, conhecer.

Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

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