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Lilia Schwarcz

Havia uma vírgula no meio do caminho

21 de maio de 2018

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Sobre a falta de eficácia simbólica do governo Temer e sua desastrada tentativa de citar Juscelino Kubitschek

Político que é político não titubeia. Mesmo quando reconhece que está errado, que disse alguma sandice, sabe bem que o melhor é seguir em frente, contornar ou pretender não notar. Político é como ator no palco: se algo falhar, o mais importante é não perder o jogo de cena e improvisar. Essa é sua eficácia simbólica: acreditar (e fazer acreditar) na magia da sua mensagem e posição.

Getúlio Vargas, que era famoso por sua prontidão e capacidade de “jogar para a plateia”, certa feita resolveu explicar por que a feijoada seria um prato “tipicamente brasileiro”. Quem conhece a história sabe que ela não é: as partes menos nobres do pobre porco costumavam serem jogadas fora – preteridas pelos senhores –, e recuperadas pelos escravizados e escravizadas que assim conseguiam cozinhar para si um prato menos ralo. Já Getúlio se saiu com uma das suas. Disse que o branco do arroz correspondia às populações europeias; o preto ou marrom do feijão seriam uma alegoria das nações africanas e de seus descendentes; o amarelo da laranja, uma homenagem aos orientais que entraram no país a partir do final do século 19; o vermelho da pimenta uma alusão aos indígenas que aqui estavam antes da chegada dos portugueses. Discurso pronto e encerrado perguntaram ao presidente qual a importância da couve? E ele, no bate-pronto, reagiu:  “ah, meu filho, são as nossas florestas!”.

Enfim, nessa passagem, que talvez não passe de peça do folclore político, fica evidente a capacidade do político de não tropeçar. É melhor falar forte, não mostrar oscilação, explicar até mesmo fogo em meio de cachoeira.     

Esse tipo de atuação vale para descrever a atividade de políticos carismáticos, mas também para definir outros tipos de liderança: a religiosa por exemplo. Claude Lévi-Strauss, em artigo hoje clássico, chamado “A eficácia simbólica; o feiticeiro e sua magia” (1949), conta, entre outros, a história de Quesalid, um homem comum, que, a despeito de sempre negar, acabou se transformando num grande feiticeiro. A sua eficácia não estava, portanto, nas poções e cânticos que produzia (ou não produzia), mas, sobretudo, no fato da sociedade querer que ele “fosse um grande feiticeiro”. O etnólogo também relativiza, e coloca em paralelo, a figura de xamãs e médicos. Segundo ele, muito da eficácia simbólica desses “profissionais da cura” estaria na história que narram e como a narram. Não existe titubeio possível. 

Marc Bloch perseguiu uma hipótese semelhante quando estudou os reis taumaturgos franceses e ingleses em 1924. O historiador analisou a capacidade que esses soberanos medievais tinham de, com apenas um toque, um toque real, curar as escrófulas, feridas pustulentas que matavam muitos dos seus súditos. Cético, o historiador francês procurou, a princípio, deslegitimar a magia. Como ter certeza que o rei, de fato, curava? Afinal, escreve ele, se o “paciente” falecesse não voltaria para reclamar. Por outro lado, se saísse curado também não teria por que retornar ao ritual régio, e correr o risco de ser novamente contaminado. Ao final do livro, porém, o estudioso entrega os pontos e conclui que os reis curavam, pois, no fundo, a comunidade que os circundava desejava acreditar na sua magia.  Pois somos todos, mais ou menos, assim: gostamos de acreditar nas fórmulas e rituais do Estado.

Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

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