Coluna

Lilia Schwarcz

O som do meu silêncio

04 de junho de 2018

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Ninguém conseguia tirar aquilo que havia entrado no meu corpo, feito assombração.

Tudo aconteceu numa noite fria de junho de 2017. Estava em casa com meu marido, quando ouvi um som forte de cachoeira nos meus dois ouvidos. Levei um susto e, meio confusa, lembro de ter perguntado ao Luiz se ele havia escutado alguma coisa. Nada…

De toda maneira, assim como veio, silenciosamente, o ruído foi embora. Por isso mesmo, logo esqueci do episódio, que bem poderia ter ficado preso ao acaso ou ganhar a forma de uma contingência. O problema é que não era. Uma semana depois, o barulho invadiu novamente a minha audição e, a partir daquele dia, instalou-se como se tivesse direito a usucapião.

Naqueles primeiros momentos “sofri por incompreensão”. Era como se minha vida tivesse sido tomada por uma zoeira difusa, e que não me dava trégua. Acordava e ia dormir com aquele sonido dentro de mim; por vezes mais alto, por vezes mais tímido, mas sempre presente. Era preciso dar aula ouvindo o meu barulho interno, conversar com os amigos e ter o ruído por perto, ir ao cinema e escutar o meu som, disputar a audição que se travava entre, por exemplo, um concerto ou minha própria interioridade.

Cética que sou, fui deixando passar e até me convenci de que, assim como havia chegado – do nada–, algum dia minha cachoeira íntima se despediria de mim e iria habitar algum outro lugar. Ledo engano.

Após algum tempo resolvi encarar o danado do dia a dia. Dormir nunca foi um problema; até me habituei a pegar no sono embalada pelo meu próprio som. Mas o que me incomodava, mesmo, e por vezes me levava ao desespero, era não viver mais em silêncio. Sempre me dei bem com o meu silêncio: escrevo em silêncio, leio em silêncio, corro em silêncio. No entanto, e infelizmente, passado exatamente um ano, percebi que os tempos dos verbos tinham ficado obsoletos. O certo era concluir que escrevia, lia e corria em silêncio.

Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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