Coluna

Lilia Schwarcz

Diagnóstico de um Estado doente

02 de julho de 2018

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O Atlas da Violência descreve o assassinato de muitos Marcos Vinícius, jovens negros das periferias de todo o país, que, a partir dos 14 anos, já entram perigosamente nas taxas de homicídio por armas de fogo

Os números de homicídios no Brasil equivalem à queda, diária, de um Boeing 737, totalmente lotado. Essa é uma das conclusões do Atlas da Violência de 2018, produzido pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

O mesmo relatório atesta que no Brasil, pela primeira vez, o número de mortes violentas superou a casa dos 60 mil em um ano. Tal quadro nos coloca dentro de um grupo de países considerados violentos, com índices de mortalidade 30 vezes maiores do que aqueles observados, por exemplo, no continente europeu. Estamos falando de um total de 153 mortes ao dia; um número quase surreal de “baixas humanas”: na última década, 553 mil brasileiros perderam a vida por homicídios dolosos.

Não basta, porém, ficar apenas com os números frios das estatísticas. O melhor é interseccionar tais dados com alguns marcadores sociais de diferença, como raça, classe, geração e região.

Começo com o quesito geração: 10% do total das mortes no Brasil atingem homens jovens; dos 15 aos 29 anos. No entanto, é na faixa dos 15 a 19 anos que o problema se torna ainda mais agudo: 56,6% dos óbitos provém de assassinatos.

Há, entretanto, outras desigualdades a anotar.  Se cruzarmos o marcador de geração com o de raça, percebemos que 71,5% dos jovens assassinados são negros ou pardos, mostrando como a violência no nosso país tem cor.

Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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