Coluna

Lilia Schwarcz

A dialética do isso. Ou a ladainha da democracia racial

16 de julho de 2018

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No Brasil, é até possível reconhecer que exista algum tipo de discriminação, mas ela é sempre um problema do ‘outro’

Vira e mexe alguém volta ao velho e castigado tema da “nossa democracia racial”. É como se esse fosse um mantra que acompanha a história nacional brasileira, independentemente do que os dados da realidade venham a mostrar. Há pouco tempo, no dia 27 de junho de 2018, foi a vez do nosso presidenciável Jair Bolsonaro declarar de maneira categórica: “Aqui no Brasil não existeisso de racismo”.

Vale a pena explorar a frase sintética e, sobretudo, o termo “isso” nela presente. A retórica de Bolsonaro dá a entender que “isso” seria algo estrangeiro e totalmente distante do nosso dia a dia. Interessante pensar como, ainda em 2018, 130 anos após a abolição formal da escravidão, voltamos sempre à exaltação da nossa “festejada mestiçagem”, da nossa “mistura racial”, como se ela fizesse parte do DNA dos brasileiros. 

No entanto, se existiu uma mestiçagem biológica no Brasil, é difícil exaltá-la. Em primeiro lugar, houve um claro desequilíbrio na entrada de escravizados: 70% eram homens adultos, sendo os outros 30% compostos por mulheres e crianças. Tal desproporção estava também presente na sociedade brasileira colonial como um todo, a despeito de um pouco menos pronunciada: 60% eram homens e apenas 40% mulheres.

A assimetria populacional fez com que a mistura fosse resultado não de um projeto (assim chamado) humanitário, mas antes das “necessidades do corpo”. Além do mais, diante da profunda hierarquia que o sistema criava, as relações entre senhores e escravizadas eram, na imensa maioria das vezes, forçadas e não consensuais. Taxas de estupro na alcova dos proprietários escravistas eram das mais elevadas, assim como imensa a quantidade de crianças que apenas conheciam sua filiação materna, uma vez que o pai, de praxe, não oficializava a relação.

Mestiçagem pode ser pensada, portanto, como “mistura”, mas também como “separação”; uma separação autoritária e hierárquica. É por isso que a frase de Bolsonaro diz muito sobre o que ela não diz. Sobre o que precisa ficar oculto. Isto é, se é preciso afirmar que “não existe isso” é porque justamente existe “isso”, sim. Negar sempre foi uma forma de esconder o “isso” que existe entre nós. E para dar conta de tanta negação, e na via oposta, desenvolveu-se uma longa ladainha de um país marcado por uma suposta e imanente “democracia racial”. 

Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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