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Lilia Schwarcz

Macunaíma faz 90 anos

27 de agosto de 2018

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“O herói sem nenhum caráter” de Mário de Andrade continua atualíssimo, sem caber em nenhuma caixinha, iluminando nossa imaginação sobre a utopia de um Brasil mais plural e diverso

“Macunaíma, o herói sem nenhum caráter”, um dos livros mais emblemáticos do modernismo brasileiro, acaba de completar 90 anos, com corpo e jeitinho de 30. A obra não perdeu atualidade. Basta notar a quantidade de críticas literárias, de peso, que o livro mereceu e ainda merece, a imensa recepção da época e a atual, ou então o número de adaptações que o texto ganhou (e em várias mídias): cinema, teatro, televisão e até quadrinhos.

Ainda hoje, uma espécie de folclore ronda a obra. Costuma-se dizer que seu autor — o conhecido escritor, crítico e pesquisador Mário de Andrade (1893-1945) — andava quase que “grávido” da obra. As primeiras anotações, que datam de 1926, restaram, porém, soltas e em fichas avulsas.

Foi apenas no final daquele ano, quando o futuro autor de “Macunaíma” passava férias na chácara de seu primo Pio Lourenço Correa, em Araraquara, que, depois de  alguns dias, o escritor deu por terminada uma primeira versão manuscrita, distribuída em sete cadernos. Logo na sequência escreveria outros dois; todos radicalmente condensados em dois cadernos finais. Ansioso, em janeiro de 1927, o escritor entregou os originais para impressão. No entanto, preciosista do jeito que era, fez tantas alterações que a primeira edição só seria publicada em 26 de julho de 1928.

Verdade ou não, o fato é que o livro guarda uma forma urgente, multifacetada, que lembra, segundo a crítica literária Gilda de Mello e Souza (1919-2005), o gênero da rapsódia. Sua forma é fragmentada e a narrativa recortada por  fontes diversas. A principal, e pela qual Mário se apaixonou, foi a obra de Theodor Koch-Grumber, “Vom Roraima zum Orinoco”, datada de 1924. Na verdade, apaixonou-se pela figura de Macunaíma; um personagem irrequieto que transitava pela fronteira ao Norte do país, sem respeitar traçado oficial ou mapa delimitado. Segundo documento publicado por Telê Porto Ancona Lopes, na edição crítica da obra, Mário teria confessado que: “no geral meus atos e trabalhos são muito conscientes por demais para serem artísticos. ‘Macunaíma’ não. Resolvi escrever porque fiquei desesperado de comoção lírica quando lendo o Koch-Grünberg percebi que Macunaíma era um herói sem nenhum caráter nem moral nem psicológico, achei isso enormemente comovente nem sei por que, de certo modo pelo ineditismo do fato, ou por ele concordar um bocado com a nossa época, não sei…”.

Não ter nenhum caráter era uma forma de ter todos. Aliás, Macunaíma não respeita tempo e tampouco espaço, viajando como cavaleiro andante — sem ser muito cavaleiro —, por todos os lugares e épocas, para jamais pousar em local algum. Esse perfil atípico do personagem até podia estar nas passagens retiradas do livro de Koch-Grünberg, mas Mário de Andrade tratou de agregar outras histórias, recontos, heróis e anti-heróis, achando inspiração nas páginas da literatura indígena, africana, ibérica, portuguesa, brasileira e europeia. Além do mais, acrescentou suas experiências pessoais, seus estudos etnográficos, suas próprias viagens, e a leitura particular da história brasileira e dos folcloristas que realizou.

Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

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