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Por mais que eu tente me dedicar a escrever colunas mais animadas, digamos assim, a danada da realidade vem me forçando a realizar o oposto. Já faz algum tempo que todo dia é dia de notícia ruim. E o pior, como diz o provérbio,“notícia ruim nunca vem sozinha”.
Se em outra coluna comentei a situação de penúria da Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro); em mais outra o corte de verbas do CNPq, já na semana que passou dois novos fatos abalaram a comunidade acadêmica brasileira.
O primeiro, amplamente noticiado, foi o incêndio que consumiu boa parte do Museu Nacional. As chamas pegaram em cheio a área expositiva, os documentos históricos, as coleções etnográficas, de aracnídeos, borboletas, insetos e moluscos. Fósseis e múmias foram igualmente destruídos senão pelas chamas, por conta dos destroços. Isso sem esquecer da biblioteca do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do museu, um programa de excelência, com nota 7, que corresponde ao melhor conceito que se pode obter no sistema brasileiro. Esse era um dos acervos mais completos na área, contando com 37 mil volumes, constituído ao longo de mais de 50 anos.
Passada uma semana, porém, o que chama atenção é a maneira como a opinião pública tem oscilado, e rapidamente. Nos primeiros momentos, a imagem de um prédio histórico, que acabara de completar 200 anos, sendo consumido por um incêndio, comoveu os brasileiros. Se ficou evidente como faltava tudo no Museu Nacional – de verba para faxina até hidrantes abastecidos para conter as chamas –, de repente, manifestações aqui e acolá começaram a transformar a vítima em vilão. A culpa seria da UFRJ, de seus professores, de seu reitor que pertence ao PSOL, da diretoria que não aceitou uma suposta verba do Banco Mundial dez anos atrás (notícia desmentida depois pelo próprio banco) e assim vamos. Outras propostas insinuavam que os funcionários deveriam ter feito greve, manifestações e até pedido demissão em massa. Greve e manifestação eles fizeram, e muitas. Quanto à demissão, penso que é fácil pontificar sentado numa cadeira de escritório e com emprego garantido.
Como nesses últimos tempos ninguém e nada neste país resiste a uma polarização política e ao debate que fica imediatamente ideologizado, também o tremendo acidente do museu foi dormir no lamento e acordar no lamaçal da política normativa que tem assombrado o país.
Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.
Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.
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