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Margot era o nome das duas. Nome forte, de rainha, Margot é também uma variante francesa e inglesa de “Margarida”, um termo que vem do latim (“Margarita”), que por sua vez se origina do grego, “margarítes” ou “maragon”, cujo significado remete a “pérola” ou a “seres especiais”. Pois minha coluna é dedicada a duas Margots; dois seres muito especiais.
Margot era o nome de minha avó paterna, uma pessoa totalmente fora da curva; adorável. E foi como uma forma de homenagem a ela que batizamos outra criatura maravilhosa, que morou na nossa casa por nove anos. Nesse último caso, trata-se de uma linda Bernese, digna e valente.
Minha avó Margot era, conforme a definição do rabino que oficiou seu enterro, “um caso raro de unanimidade na comunidade judaica”. Ficou famosa a piada que explica como basta um judeu para existirem duas sinagogas: uma para frequentar; outra para dizer: “naquela eu não vou de jeito nenhum!”. Já minha avó, a Vova, fugia a qualquer regra fácil. Mesmo depois de completar 80 anos fazia questão de continuar visitando seus “velhinhos”, conforme ela os definia, e que não tinham com quem celebrar seus respectivos aniversários. Vovó Margot também jamais deixava de acompanhar amigos doentes, tendo sido vista, certa vez, descendo na corrida a rampa do hospital Beneficência Portuguesa, só “para aproveitar a descidinha”.
Vovó Margot adorava uma liquidação de remédios e era dona de definições inesquecíveis sobre o envelhecimento. Vova desfazia, porém, das suas próprias dores. Comentava que se um dia acordasse sem nenhuma delas, era porque, com certeza, não tinha acordado. Também nos conformava, de uma maneira paradoxal, dizendo que com a idade “melhor não ficava”.
Minha avó era muito dedicada à sua comunidade: todas as semanas frequentava o “clube de costura”, composto por senhoras que se reuniam com o intuito de fazer roupas para os mortos, pois, na religião judaica, todos vão à terra da mesma maneira: com uma mortalha branca, chinelos e touca do mesmo tecido. Participava ainda da Chevra Kadisha; uma instituição voluntária que se incumbe da lavagem e enterramento daqueles que pereceram. Este tipo de trabalho é considerado uma grande mitzvah, um ato de bondade. Atenta aos costumes (mas sem qualquer chance de exagero religioso) ela não perdia um dia das grandes festas. Nessas ocasiões solenes, ela assumia uma atitude concentrada, como se absorvesse, atentamente, as mensagens do rabino oficiante. Muito séria, jamais desviava os olhos. Só mais velha é que percebi que Vovó Margot ouvia apenas o que queria ouvir. Um dia, quando num momento forte da prédica escutamos um sonoro, “porque depois da angústia vem a consolação”, ela logo me perguntou, curiosa: “- O que é mesmo Liloca que há entre a rua Augusta e a Consolação?”. Foi assim que entendi que a graça que Vova encontrava, em todos os lugares que frequentava, era aquela de estar junto dos demais e participar. E ela era assim mesmo: queria reunir e estar por perto.
Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.
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