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Mudanças de chefe de Estado sempre vêm acompanhadas de muita ritualização. Momentos de posse são festas do poder, eventos destacados em que os novos governantes mostram sua força e popularidade, bem como representam o desejo de posteridade; deles e de seus súditos.
A monarquia sempre foi mestra em introduzir o ritual na própria estrutura do poder. Quanto mais requintado ele fosse, melhor transmitiria aos súditos a visão de estabilidade que, no fundo, é a única que justifica tanto apuro e complexidade. E, em terras tropicais, nada seria diferente. Um bom exemplo pode ser encontrado na posse de Pedro II, quando se fez de tudo para transformar o que era falta num grande excesso. Afinal, era necessário encenar (e disfarçar) o ritual da pouca idade do imperador – que em 1840 tinha apenas 14 anos de idade –, com imensa pompa e circunstância. Não só o soberano seria apresentado com um manto bem maior do que ele, e que por isso se dobrava e arrastava no chão, como o cetro que o monarca carregava nas mãos parecia longo demais. Para piorar o embaraço da situação, o objeto não lembrava um Estado independente, mas uma realeza que ainda ecoava um símbolo Bragança, na serpe alada que se destacava na ponta superior do aparato. Também a coroa parecia um pouco pesada e desajeitada na cabeça do jovem rei, que necessitava ficcionalizar a unidade de uma corte partida por rebeliões nativistas regenciais, que dividiam o país – a Cabanagem no Pará, a Sabinada na Bahia, a Balaiada no Maranhão e a Farroupilha no Rio Grande do Sul.
Mas a lógica do ritual ainda assim produziu uma sensação de encantamento. Milhares de pessoas se acotovelaram e até dormiram sentadas na véspera da coroação, equilibrando perucas de cerca de 60 centímetros, com o objetivo de garantir o melhor lugar e participar da lógica do “ver e ser visto”.
E o tempo faria de Pedro II a imagem e encarnação do “Golpe da Maioridade”, nome pelo qual ficou conhecido o episódio que levou à antecipação da idade do garoto, logo transformado em adulto e até velho. Por isso mesmo, o imperador, rapidamente, se casaria, teria filhos e se apresentaria com uma espessa barba, que logo ficaria branca, conferindo-lhe uma imagem de maturidade, difícil de ser aferida na realidade.
Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.
Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.
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