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Lilia Schwarcz

Não é só civismo que falta nas nossas escolas

11 de março de 2019

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Cidadãos mais ativos e autônomos precisam contar com escolas igualmente cidadãs, no sentido de provocar o debate franco e não a decoreba fácil

Qual seria o objetivo de um ministro de Estado quando resolve enviar um comunicado incitando a população escolar a cantar o hino nacional? Não pretendo discutir as outras determinações constantes desse já famoso documento, em que Ricardo Vélez Rodriguez incentiva a filmagem dessa prática e ainda menciona, ao final de sua carta dirigida aos diretores de escola, o surrado slogan do presidente Jair Bolsonaro: “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos!”  

Como o ministro da Educação voltou atrás, ao menos nesses dois últimos aspectos – aliás, numa atitude que tem sido bastante comum neste governo e que consiste em lançar o contencioso e depois recuar – não me parece necessário investir nesses temas. Não obstante não posso deixar de mencionar a violência de sugerir a exposição de crianças na internet, ou mesmo o fato de sermos um Estado laico e, portanto, contrário a esse tipo de manifestação oficial. 

Em princípio, não sou contra as escolas passarem lições de civismo, isso se o objetivo for educar para libertar e para criar cidadãos críticos e autônomos. No entanto, não me parece suficiente voltar ao velho modelo da época da ditadura militar, quando o ensino de Moral e Cívica consistia em basicamente decorar hinos, dísticos pátrios, símbolos nacionais e usar da narrativa histórica como uma forma de elevação da pátria.

São muitos os nossos desafios nessa época em que os estudantes recorrem mais às mídias digitais do que às obras especializadas e de reconhecida competência; em que muitos alunos vão carregando repetições em suas costas e com isso frequentam turmas com idades defasadas das suas; em que vários deles saem da instituição escolar sem saber fazer contas elementares e sem poder ler o texto de um bilhete, e em que o currículo básico ainda apresenta um gap relevante em relação aos interesses de sua clientela.

Com tantos desafios consistentes pela frente, voltar ao modelo automático da exaltação do passado, como se esse tivesse sido um “tempo distante e glorioso”, não parece ser medida premente ou até ajuizada. Melhor seria voltar ao passado com questões do presente, ir aos “tempos do antes” com indagações dos “tempos de agora”. Só assim temos chance de educar civicamente, no sentido de criar cidadãos mais conscientes e críticos, também.

Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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