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Não é a primeira vez que, em tempos de crise, se inventam, recriam e ou se releem, com novos acentos, velhas e por vezes consolidadas narrativas históricas. A estratégia não tem nada de recente. Na antiga União Soviética, o jornal do Partido Comunista, o Pravda, cuja tradução quer dizer “verdade”, não titubeou: defendeu o autoritarismo como a única história viável. Até mesmo países de reconhecida tradição liberal costumam patinar quando precisam lembrar de um passado que preferem esquecer. Esse é o caso do regime de Vichy na França (1940-44), quando as elites locais colaboraram com o nazismo, ou mesmo da Espanha, que até hoje não consegue acertar suas contas com o período violento da Guerra Civil (1936-39), que dividiu, e ainda divide, sua população.
Mas são os governos de raiz autoritária que costumam ser os mais “afiados” na hora de acionar esse tipo de expediente político. O nazismo de Adolf Hitler (1933-1945) inventou um passado “ariano” para os alemães: puro e não conspurcado pelos demais imigrantes e pessoas consideradas degeneradas.
Nessas horas, a história vira fundamental, uma espécie de certificado para justificar governos que preferem voltar a um passado mitificado para assim glorificar o seu presente. Eliminar lugares de memória, na bela definição de Pierre Nora, é, portanto, uma prática tão comum como generalizada.
Todavia, esse tipo de atitude é ainda mais recorrente no interior de sociedades em que a história participa diretamente da luta política, vira uma forma de nacionalismo, e passa a buscar amenizar ou simplesmente anular acontecimentos traumáticos do passado. Edulcorar e exaltar eventos dramáticos na história de um país, transformar a derrota em vitória, é manejo tão conhecido como lamentável.
E essa tem sido nossa tônica atual. Por aqui, a história virou uma espécie de pau para qualquer obra. Qualquer um se transforma logo em especialista e fala de cátedra sobre temas sobre os quais pouco pesquisou, jamais leu e, por vezes, mal ouviu falar. Por exemplo, ultimamente temos procurado dar um upgrade no nosso passado castigado. Em vez de analisar o que significou o fato de termos sido o país que mais recebeu mão de obra escravizada durante a modernidade ou de refletir sobre termos abolido o sistema escravocrata mercantil em último lugar no Ocidente, tem parecido mais “razoável” tentar colocar a conta nas costas dos africanos. Nada mais covarde e perverso do que transformar a vítima em algoz. Vítimas, aliás, que sempre reagiram, e de inúmeras formas, ao cativeiro.
Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.
Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.
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