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Se você já foi ao exterior, com certeza, teve a oportunidade de deparar com pessoas definindo os brasileiros como alegres, cordatos, tolerantes. Mesmo dentro do país, durante muito tempo, esse tipo de representação alvissareira fez parte de uma espécie de autorretrato dos habitantes do nosso país.
Já nos idos de 1936, Sergio Buarque de Holanda, no livro “Raízes do Brasil”, denunciava um uso ritual de cordialidade, digamos assim, mostrando como essa era apenas uma visão externa, o pico do iceberg, a superfície de um fenômeno bem mais profundo, que encobria uma sociedade muito hierarquizada e de padrões tão rígidos como autoritários.
Também faz tempo, mais exatamente em 1979, que Roberto da Matta analisou um outro ritual nacional muito presente na sociedade brasileira. O antropólogo tomava como base uma única expressão em tom de pergunta: “você sabe com quem está falando?”. Segundo ele, a questão não implicava resposta, já que a indagação era em si suficiente para dirimir qualquer dúvida. Aliás, pretendia, com sua mera emissão, estabilizar o mundo e suas hierarquias de mando. Tudo nos seus devidos lugares.
Interessante notar, e os exemplos seriam vários, como uma série de pensadores nacionais repisaram essa que é uma quase mania estereotipada dos brasileiros que gostam de se imaginar e de serem imaginados como alegres, cordatos, tolerantes.
Esse tipo de visão não resiste, porém, a uma briga de trânsito, uma batida policial, uma discussão em família, um desencontro entre colegas. Nessas horas, costumamos reproduzir velhos e estabelecidos locais sociais e trazer à tona o que fica normalmente submerso. Ou seja, o Brasil é um país com um passado escravocrata enraizado em sua sociedade; uma nação que não se livra dos mandonismos criados ainda no período colonial, quando o território foi dividido em grandes propriedades monocultoras; que convive e naturaliza uma violência cotidiana com números de mortandade que se aproximam dos genocídios praticados em guerras civis, e que não sabe como lidar com o fato de sermos um dos países mais desiguais do mundo, ocupando o nono vergonhoso lugar em um ranking internacional. Aliás, estávamos em décimo lugar em 2017 e caímos para o nono em 2018.
Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.
Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.
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