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É possível dizer que, na história, nada é exatamente uma coincidência. Não poucas vezes, o que se parece como um mero descuido carrega muita intenção, assim como traz certas marcas do passado que insistem em se apresentar no presente. E um bom exemplo é a entrada das teorias raciais – as teorias do darwinismo racial – bem no contexto em que o sistema escravocrata ia sendo (finalmente) desmontado no Brasil.
Ou seja, em finais do século 19, ao mesmo tempo em que o país se preparava para abolir a escravidão, tomava força e virava moda uma série de teorias do determinismo racial, também conhecidas como darwinistas sociais. Elas divulgavam a concepção, na época considerada científica, de que as raças se constituíam em fenômenos não apenas “finais”, como “essenciais”; eram “ontologicamente” diferentes.
Por conta desses pressupostos, buscavam, também, estabelecer hierarquias rígidas, nas quais os brancos (europeus) apareciam no topo da pirâmide social, enquanto negros e indígenas figuravam na sua base. Por fim, como acreditavam que as raças eram profundamente diversas (e se diziam poligenistas) opunham-se às máximas de Charles Darwin (1809-1882), que defendeu a tese de que todos partimos de um berço e de uma origem comuns; advogando, assim, os princípios do monogenismo.
Já os darwinistas raciais, a despeito de partirem da teoria de Darwin, consideravam que no processo evolutivo as raças teriam se diferenciado. Por isso mesmo, julgavam que, muito “pior” do que as “raças puras”, eram as “raças mestiças”. Segundo teóricos do racialismo como Joseph Arthur Gobineau (1816-1882), na França, e Raimundo Nina Rodrigues (1862-1906), no Brasil, a mistura apenas levava à “degenerescência”, pois carregava, segundo eles, as piores características de cada um dos lados da parentela. Existiriam, inclusive, sinais externos que ajudavam a determinar tais pessoas e “tipos”. Esses eram chamados de “estigmas”, os quais poderiam ser divididos em “sociais” (tatuagens, epilepsia, loucura e até anarquismo) ou “biológicos” (linha solitária na palma da mão, testa pronunciada, narizes de águia e a cor amorenada).
Como se vê, não havia mesmo coincidência ao vincular as populações negras a práticas “biologicamente” determinadas, como a criminalidade ou a insanidade. Essas eram, pois, “teorias da diferença” e opostas a uma visão mais universal. Dessa maneira, enquanto o liberalismo ia ganhando força, e mostrando que os homens eram iguais, esses modelos raciais propunham o oposto: a humanidade andava profundamente cindida e separada por raças.
Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.
Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.
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