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Não me parece coincidência que governos autoritários, espalhados pelas mais diferentes partes do mundo, e vigentes em diferentes períodos da história, apresentem, em comum, o fato de tomarem os livros como objetos a serem destruídos: queimados, recolhidos ou censurados.
A história mostra como livros e bibliotecas foram e estão sempre sendo destruídos, seja por motivos naturais, seja por conta da própria consciência instável dos homens. Essa é a história da biblioteca de Alexandria, que durante um século teve o mérito de aglutinar 700 mil volumes, que correspondiam a parte significativa do conhecimento disponível sobre a Grécia, mas que ardeu com um incêndio criminoso. Também não foi obra do acaso os ingleses queimarem, em 1814, a Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, com seus 3.000 livros. Algo semelhante ocorreu quando Monte Cassino foi bombardeada, durante a Segunda Guerra Mundial, perdendo-se boa parte do conhecimento acumulado sobre a Europa medieval. E não foi muito diferente a sina da Biblioteca Nacional do Camboja, que, atacada pelo Khmer Vermelho, teve 80% de seus livros desaparecidos, assim como foram assassinados 57 dos seus 60 bibliotecários.
A queima de livros, vista numa perspectiva de longa duração, corresponde a uma espécie de ato ritual, geralmente praticado em locais públicos para assim ganhar um caráter exemplar. E são vários os casos que ilustram tal informação. Em 1244, edições do Talmude e de outros manuscritos judaicos lotavam 24 carruagens que circulavam nas ruas de Paris; foram propositadamente queimados. A Inquisição espanhola, em 1499, incendiou 5.000 manuscritos árabes na cidade de Granada. Documentos maias e astecas foram queimados pelos conquistadores espanhóis, no ano de 1560, por serem considerados “obras do demônio” e se encontrarem cheios de “superstições”. A famosa Bíblia de Lutero, bem como várias de suas traduções, acabaram queimadas, em 1640, por príncipes de regiões católicas da Alemanha. No ano de 1730, o arcebispo de Salzburg supervisionou pessoalmente a destruição de livros protestantes. A “Sociedade nova-iorquina para a Supressão do Vício”, fundada em 1873 nos EUA, chegou a usar um desenho representando a queima de livros como símbolo para combater a imoralidade. Nos anos 1920, na então União Soviética, incendiou-se um número ainda hoje indeterminado de obras “decadentes” do Ocidente.
Talvez o exemplo mais famoso tenha ocorrido em 1933, quando, logo após a subida ao poder de Adolf Hitler, foram queimados, em várias cidades da Alemanha, todos os livros considerados contrários ao sistema e aos valores nazistas. O evento virou ícone e exemplo para regimes opressores que procuram silenciar e censurar obras não coadunadas com esses governos.
Durante o macartismo, na década de 1950, várias bibliotecas dos EUA queimaram livros considerados comunistas. O mesmo fez a ditadura de Augusto Pinochet, no Chile, que em 1973 determinou o extermínio de livros como forma de censura. Caso muito semelhante ocorreu em 1981, na Sri Lanka, quando forças policiais deram fim à biblioteca pública de Jaffna, que contava com 100 mil livros e documentos raros, boa parte deles pertencentes à minoria tâmeis. Durante a Guerra da Bósnia (1992-1995) arderam várias bibliotecas com o objetivo expresso de destruir a cultura muçulmana dominante no local.
Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.
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