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Lilia Schwarcz
Para conhecer as histórias silenciadas das mulheres artistas
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Fazer parte de uma equipe curatorial significa entrar numa viagem em que é possível imaginar o destino final, mas é impossível ter certeza do trajeto que se irá tomar. Pois bem, se tenho participado como curadora de uma série de exposições, elaborar uma mostra no Masp , sobre “História das mulheres: artistas até 1900”, junto com Mariana Leme e Julia Bryan-Wilson, significou encarar desafios que mexeram com minha própria identidade feminina.
O primeiro sintoma de que havia algo de estranho nessa exposição surgiu quando tivemos certeza de que, enquanto artistas homens faziam parte, naturalmente, do cânone, estando presentes e super-representados nos livros de arte, nos principais museus e instituições, as artistas mulheres parecia pairar um constrangedor silêncio. Ou melhor, ocorre uma constrangedora inversão; uma involução.
Um exemplo interessante, nesse sentido, é o de Sofonisba Anguissola (c. 1532-1625); uma das primeiras pintoras a realizar carreira internacional e a conquistar fama, abrindo caminho para gerações seguintes de artistas mulheres. Nascida em uma família da pequena aristocracia italiana, ela recebeu uma formação humanista, e teve aulas de pintura em ateliês de pintores renomados, como Bernardino Campi (1522-1591). Especializou-se, ainda, no retrato, inovando na construção das cenas, demonstrando domínio da técnica e sensibilidade em captar a expressão dos modelos. Pois bem, à época, Sofonisba teve sua habilidade reconhecida e elogiada por grandes personalidades. Tanto o pintor Michelangelo Buonarotti (1475-1564), como o historiador da arte Giorgio Vasari (1511-1574) a incluíram em seus compêndios.
Autorretrato de Sofonisba Anguissola, sem data
Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.
Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.
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