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Lilia Schwarcz

Para conhecer as histórias silenciadas das mulheres artistas

21 de outubro de 2019

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Enredadas na política do lembrar e esquecer, pintoras com trabalhos relevantes produzidos até 1900 foram ficando de fora do cânone história da arte. Nesta coluna, conheça algumas delas

Fazer parte de uma equipe curatorial significa entrar numa viagem em que é possível imaginar o destino final, mas é impossível ter certeza do trajeto que se irá tomar. Pois bem, se tenho participado como curadora de uma série de exposições, elaborar uma mostra no Masp , sobre “História das mulheres: artistas até 1900”, junto com Mariana Leme e Julia Bryan-Wilson, significou encarar desafios que mexeram com minha própria identidade feminina.

O primeiro sintoma de que havia algo de estranho nessa exposição surgiu quando tivemos certeza de que, enquanto artistas homens faziam parte, naturalmente, do cânone, estando presentes e super-representados nos livros de arte, nos principais museus e instituições, as artistas mulheres parecia pairar um constrangedor silêncio. Ou melhor, ocorre uma constrangedora inversão; uma involução.

Um exemplo interessante, nesse sentido, é o de Sofonisba Anguissola (c. 1532-1625); uma das primeiras pintoras a realizar carreira internacional e a conquistar fama, abrindo caminho para gerações seguintes de artistas mulheres. Nascida em uma família da pequena aristocracia italiana, ela recebeu uma formação humanista, e teve aulas de pintura em ateliês de pintores renomados, como Bernardino Campi (1522-1591). Especializou-se, ainda, no retrato, inovando na construção das cenas, demonstrando domínio da técnica e sensibilidade em captar a expressão dos modelos. Pois bem, à época, Sofonisba teve sua habilidade reconhecida e elogiada por grandes personalidades. Tanto o pintor Michelangelo Buonarotti (1475-1564), como o historiador da arte Giorgio Vasari (1511-1574) a incluíram em seus compêndios.

FOTO:FONDATION CUSTODIA, FRITS LUGT COLLECTION

Autorretrato de Sofonisba Anguissola, sem data

Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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