Coluna
Lilia Schwarcz
Um antídoto para a cegueira racial: a obra de Toni Morrison
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Desde que li o romance “Amada” (1987) – de autoria de Toni Morrison, que recebeu o prêmio Pulitzer por esse livro e foi a primeira mulher negra a ganhar o Nobel de literatura, em 1993 –, fui tomada por uma sensação de urgência. Morrison nasceu no dia 18 de fevereiro de 1931 em Lorrain, no estado de Ohio, e faleceu recentemente, em 5 de agosto de 2019. Nesse livro, a autora volta ao contexto da Guerra Civil (1861-65), que dividiu os Estados Unidos em literalmente dois países – o Sul escravista da Confederação e o Norte liberal da União – e castigou sobretudo a população negra, muito dizimada nesse conflito.
Assim, se existiam similaridades entre os dois lados, a respeito da política imperialista adotada pela jovem nação em todo o continente americano, havia também enormes discordâncias acerca do modelo de sociedade que se queria criar incluindo os novos territórios conquistados. O Norte era caracterizado pelo desenvolvimento de uma forte indústria, defensor do trabalho livre assalariado e composto por uma forte classe média urbana. O Sul, por outro lado, possuía uma economia basicamente agrícola, voltada para a produção de algodão no sistema de plantation, com a utilização extensa do trabalho escravizado e da terra. O Sul defendia a extensão do modelo escravista para todos os territórios anexados; já o Norte advogava que deveria ser proibido o uso de mão de obra escrava.
Em meio a esse grave conflito, que resultou, entre outros fatores, na abolição da escravidão nos EUA, o ângulo selecionado por Morrison para a sua obra era (e ainda é) absolutamente inovador. Ela narra as consequências do evento militar a partir de uma casa, a Casa 124, onde moravam três mulheres negras, carregando seus traumas causados por essa guerra que devastou o país, mas também herdados do próprio sistema escravocrata, recém abolido.
Não darei nenhum spoiler se contar que nessa Casa moravam três mulheres: uma delas era a mãe; as duas outras, suas filhas. Duas dessas mulheres eram “reais”, digamos assim. A terceira era um fantasma; representava um exemplo extremo, um ato radical de resistência praticado por uma mulher que preferiu abrir mão de sua criança antes de vê-la crescer como escravizada.
Morrison inclui, portanto, a questão negra – a especificidade dessa “cidadania” rasgada e fraturada pelo regime escravocrata –, não a partir da perspectiva dos homens que engrossaram os exércitos dos dois lados da contenda, mas seguindo o olhar e o protagonismo das mulheres.
Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.
Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.
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