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Luciana Brito

Pedindo a benção às mais velhas: Vamos aceitar um mundo sem história em nome da economia?

30 de março de 2020

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Na pandemia do novo coronavírus, os mais velhos passaram a ser vistos como descartáveis por aqueles que criam uma dicotomia entre vida e fatores econômicos

Muito se falou nesta semana sobre os limites de uma quarentena. As entidades internacionais de saúde, como a OMS (Organização Mundial da Saúde), defendem que o isolamento horizontal (aquele em que todo mundo fica em casa) é a forma mais eficaz de prevenir uma proliferação rápida e desenfreada do novo coronavírus, o que faz com que todxs nós, ou melhor, boa parte de nós, fiquemos em casa. Isso não significa que o vírus não se espalhará, mas a quarentena evita algo muito perigoso e devastador, que é a possibilidade de que muitxs de nós recorramos ao sistema de saúde ao mesmo tempo, precisando de uma vez só dos hospitais, colapsando o sistema de saúde. Seria um caos, como aconteceu na Itália e como está acontecendo agora nos Estados Unidos.

Por outro lado, há quem defenda as coisas de outra forma. Criando uma dicotomia entre vida e economia, alguns afirmam que a quarentena é algo exagerado, a despeito de essa ideia ir na contramão de tudo que afirmam tanto as autoridades e órgãos internacionais de saúde quanto as autoridades políticas e pessoas de outros países que vivenciaram a experiência que estamos somente começando a testemunhar. Devemos escolher: queremos emprego, comida e uma economia funcionando ou queremos ter nossos mais velhos? O governador do estado do Texas, nos Estados Unidos, chegou até mesmo a verbalizar isso escancaradamente, ao defender que os idosos do país deveriam estar dispostos a se sacrificar pela nação. O governador Dan Patrick, que tem 70 anos, defendeu isso alinhado ao pensamento de Donald Trump, que, até recentemente, afirmava também que os EUA não poderiam parar em nome dos idosos, que compunham 80% dos mortos por covid-19, a doença causada pelo vírus. Por lá, Trump já mudou de ideia .

Mas que consequências teria esse “descarte” da população idosa? As pessoas de 60 anos ou mais foram consultadas? Não foi até pouco tempo que, para defender a reforma da Previdência, foi amplamente utilizado o argumento de que a população estava envelhecendo mais tarde e que os idosos contemporâneos são ativos, saudáveis e estão aptos inclusive para fortalecer a economia trabalhando e consumindo?

Faço então uma reflexão sobre a importância afetiva, ancestral e vital dos idosos e idosas para o mundo em que vivemos. Afinal, imaginem a Itália, alvo da nossa seletiva empatia, um país sem velhos?

Num texto do historiador Boubacar Barry , podemos perceber a importância do mais velho, chamado de Griô, entre os povos africanos que eram considerados “povos sem história” de acordo com o modelo civilizatório ocidental. De acordo com ele, as tradições e registros orais do que aconteceu no Senegal antes da chegada do colonizador francês foram fundamentais na construção e permanência de uma narrativa histórica alternativa àquela colonial, que dava início à história das sociedades senegambianas a partir da chegada do colonizador.

Luciana Britoé historiadora, doutora em história pela USP e especialista nos estudos sobre escravidão, abolição e relações raciais no Brasil e EUA. É professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia e autora dos livros “O avesso da raça: escravidão, racismo e abolicionismo entre os Estados Unidos e o Brasil” (Barzar do Tempo, 2023) e “Temores da África: segurança, legislação e população africana na Bahia oitocentista” (Edufba, 2016), ganhador do prêmio Thomas Skidmore em 2018. É também autora de vários artigos. Luciana mora em Salvador, tem os pés no Recôncavo baiano, mas sua cabeça está no mundo. Escreve mensalmente às terças-feiras.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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