Temas
Compartilhe
Em épocas de crise, não faltam exercícios de “futurologia”. Previsões de como funcionarão os “tempos do depois”, análises do “pós” pandemia, e explicações sobre como será uma futura normalidade. Ouvi vários relatos que supõem que seremos mais solidários, que cuidaremos melhor do nosso ócio produtivo, que trabalharemos menos e de forma escalonada, que seremos menos consumistas, que a divisão de gênero sofrerá uma revolução no espaço doméstico, e assim vamos.
Não entendo de “futuro” e penso que dele ninguém é dono. Mas vamos lá: vou me dar ao luxo de ser otimista no varejo e pessimista no atacado. Quem sabe nossas relações familiares possam ser afetadas positivamente. Quem sabe a solidariedade venha a “contaminar” a todos. Quem sabe ficaremos mais atentos aos problemas do meio ambiente. Quem sabe…
Sou, porém, um tanto cética diante desses prognósticos. Não é a primeira vez que a humanidade passa por crises sanitárias desse tipo e a resposta foi sempre a mesma: mal terminado o perigo, volta-se aos mesmos hábitos de outrora. Foi assim com a peste negra, assim com a tifo, a varíola, a cólera e até mesmo com a gripe espanhola de 1918. Depois que se passa da luz vermelha para a verde, as pessoas costumam voltar, com ainda mais sede, ao mesmo pote.
Tem me impressionado, sobretudo, a maneira como muitos comentam, com imensa naturalidade, acerca da uma suposta “revolução” que estaria ocorrendo dentro dos nossos “lares” em função da quarentena e do isolamento. Desconfio profundamente dessa revolução. O conceito de lar foi criado no século passado para definir uma “habitação burguesa”. No passado, a casa era apenas um local físico, onde a família central, seus agregados e trabalhadores se reuniam para partilhar uma refeição ou dormir à noite, e assim evitar ficar ao relento. Já o conceito de “lar”, muito valorizado nas sociedades liberais, carrega uma conotação sentimental, subjetiva e carinhosa. É essa mesma concepção que aparece na mitologia romana e etrusca; “lar” designava os deuses familiares —lares — e protetores do ambiente doméstico.
Na tradição burguesa e moderna o termo viria a substituir, afetivamente, aquele que antes designava o lugar da casa. No caso português, “lar” é o local onde se acende a “lareira”, significando um ambiente aquecido, física e emocionalmente. O provérbio inglês, “home sweet home” (lar doce lar), alude à ideia de um espaço doce, amável, lisonjeiro. Assim, enquanto “casa” representa uma construção material, lar nomeia uma construção humana, cheia de valores e de muito acolhimento.
Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.
Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.
Destaques
Navegue por temas