Coluna

Lilia Schwarcz

História não é bula de remédio nem vem com receita

18 de maio de 2020

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É fundamental que olhemos o passado não buscando referendar o presente mas de forma generosa, plural, diversa e verdadeira

Momentos de crise sempre inauguram disputas de narrativa. Nessas horas, parece premente inventar um passado, criar uma nova cronologia e assim referendar o presente. O caso mais emblemático é o da Revolução Francesa (1789), quando os novos dirigentes passaram a datar sua história a partir daquele momento preciso, que foi logo batizado de “Ano 1”. Também os Estados Unidos da América, quando declararam sua independência, não só fizeram uma nova constituição, como inauguraram uma nova história que dizia respeito apenas ao seu “novo” país, que precisava ser inclusive unificado, anulando-se as diferenças radicais entre o sul escravista e o norte mais liberal.

Também no Brasil deu-se basicamente o mesmo. Dentre os primeiros estabelecimentos criados no bojo da independência estava o IHGB (Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro), criado em 1838. Sediado no Rio de Janeiro, o centro logo deixaria claras as suas principais metas: construir uma história que elevasse o passado e que fosse patriótica nas suas proposições. Para referendar a coerência da filosofia que inaugurou o IHGB, basta prestar atenção ao primeiro concurso público por lá organizado. Em 1844, abriam-se as portas para os candidatos que se dispusessem a discorrer sobre uma questão espinhosa: “Como se deve escrever a história do Brasil”. A ementa era direta; tratava-se de inventar uma nova históriado epara o Brasil.

Momentos inaugurais são mesmo assim: procuram destacar uma dada narrativa temporal em detrimento de outras, criar uma verdadeira batalha retórica — inventando rituais de memória e qualificando seus próprios modelos como autênticos (e os demais como falsos) —, elevar alguns eventos e obliterar outros, endossar certas interpretações e desautorizar o resto. A história vira, portanto, objeto de disputa política!

No caso, a intenção do concurso era criar apenasuma história, e que fosse (por suposto) europeia em seu argumento, imperial na justificativa e centralizada em torno dos eventos que ocorreram no Rio de Janeiro. Mas a singularidade da competição também ficou associada a seu resultado. O primeiro lugar foi para um estrangeiro — o conhecido naturalista bávaro Karl von Martius (1794-1868), biólogo de ilibada importância que, no entanto, era novato no que dizia respeito à história em geral e àquela do Brasil em particular —, o qual advogou a tese de que o país se definia por sua mistura de povos, sem igual.

Escrevia ele: “Devia ser um ponto capital para o historiador reflexivo mostrar como no desenvolvimento sucessivo do Brasil se acham estabelecidas as condições para o aperfeiçoamento das três raças humanas, que nesse país são colocadas uma ao lado da outra, de uma maneira desconhecida na história antiga, e que devem servir-se mutuamente de meio e fim.” Utilizando a metáfora de um caudaloso rio, correspondente à herança portuguesa que acabaria por “limpar” e “absorver os pequenos confluentes das raças índia e etiópica”, o cientista representava o país a partir da singularidade da mestiçagem aqui existente. A essa altura, porém, e depois de tantos séculos de vigência de um sistema violento como o escravocrata — que pressupunha a propriedade de uma pessoa por outra e criava forte hierarquia entre brancos que detinham o mando e negros que deveriam obedecer, mas não raro se revoltavam —, era no mínimo complicado simplesmente exaltar a harmonia. Além do mais, indígenas continuavam sendo dizimados no litoral e no interior do país, suas terras seguiam invadidas e suas culturas, desrespeitadas.

Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

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