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Luciana Brito

Visões da liberdade: o que é ser livre do lugar em que você está?

25 de maio de 2020

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Nos Estados Unidos e no Brasil, manifestantes que defendem o fim do isolamento social acham que as regras não devem ser iguais para todos

O que significa liberdade para você? A cada dia que passa, percebemos, ou só confirmamos, que o sentido da liberdade varia a depender de quem reflete sobre ela. No título desse artigo, uso o nome do importante livro do professor e historiador Sidney Chalhoub, “Visões da liberdade”. Nele, somos surpreendidxs com as leituras do que seria liberdade, ou quase liberdade, por parte das pessoas escravizadas. Quando elas sabiam que a liberdade “total”, ou seja, a liberdade do cativeiro, não era possível, tentavam negociar e/ou transformar os termos do cativeiro. Conquistas como dormir fora da casa do senhor, não ser castigado excessivamente, não ser separadx da família, não ser enviado para trabalhar numa plantação ou a mudança de um feitor muito cruel eram vistas como ganhos dentro da escravidão. Podia não ser o ideal, mas essas eram conquistas que tornavam a espera da liberdade algo mais suportável.

Quando, durante a Revolução Francesa, gritaram por “liberdade, igualdade e fraternidade”, a população escravizada do Haiti, então colônia francesa, entendeu isso como o fim da escravidão. Só que não era isso que os franceses queriam dizer, e o resultado foi a maior revolta de escravos das Américas, em 1791.

Nos Estados Unidos, quando gritaram “liberdade” durante a independência do país, os africanos e afro-americanos escravizados entenderam algo parecido com o que entenderam as populações escravizadas do Haiti. O presidente Thomas Jefferson, assim como demais senhores de escravos, rapidamente afirmou: Nós somos livres, vocês não. E assim os EUA continuou a ser um país escravista. Depois disso, o movimento abolicionista afro-americano passou a apontar as contradições daquela declaração de independência, que afirmava os Estados Unidos como “the land of the free” (a terra dos livres), a despeito de possuir uma grande população escravizada.

Quem fez essa analogia entre liberdade atual, em 2020, durante a pandemia do novo coronavírus e liberdade em tempos escravistas não fui eu, e sim uma manifestante no estado norte-americano da Califórnia. Em 15 de abril, quando começou a publicar no Twitter mensagens que incitavam a população a se “insurgir” contra regras estatais de isolamento social, o presidente Donald Trump começou a associar liberdade a ações coordenadas de quebras de medidas de saúde pública. Além de defender o descumprimento do isolamento social, Trump defendia que os manifestantes “salvassem” a segunda emenda, artigo da Constituição do país, ainda escrita durante o período escravista, que defendia que os “cidadãos” portassem armas para se defenderem.

Desde então, grupos de milícias fortemente armadas têm se concentrado nas cidades nas quais os governadores e governadoras vem impondo medidas de isolamento social. Mas o que defendem os manifestantes? Defendem seu direito à “liberdade”, que pode custar a vida de muitas pessoas, inclusive daquelas que protestam pelo fim do isolamento social.

Luciana Britoé historiadora, doutora em história pela USP e especialista nos estudos sobre escravidão, abolição e relações raciais no Brasil e EUA. É professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia e autora dos livros “O avesso da raça: escravidão, racismo e abolicionismo entre os Estados Unidos e o Brasil” (Barzar do Tempo, 2023) e “Temores da África: segurança, legislação e população africana na Bahia oitocentista” (Edufba, 2016), ganhador do prêmio Thomas Skidmore em 2018. É também autora de vários artigos. Luciana mora em Salvador, tem os pés no Recôncavo baiano, mas sua cabeça está no mundo. Escreve mensalmente às terças-feiras.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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