Coluna

Lilia Schwarcz

Quando a pergunta é equivocada, a resposta só pode estar errada

15 de junho de 2020

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Em 1904, a Revolta da Vacina inaugurou um ciclo de rebeliões contra a exclusão social e o autoritarismo, mostrando para a recém-proclamada República que democracia não funciona com racismo

O Brasil do início do século 20 mais se parecia com “um grande hospital” invadido por clientes acometidos por todo tipo de epidemia: varíola, tuberculose, peste bubônica, febre amarela, lepra, sífilis e ainda outras mais. A definição entre aspas é do médico Miguel Pereira, e dizia respeito também à média de vida dos brasileiros, que permanecia na escandalosa faixa dos 31 anos. Morria-se muito e muito cedo.

Foi para lidar com essa triste realidade que o então presidente Rodrigues Alves, que ganhara o suspeito pseudônimo de “Soneca”, resolveu contratar uma equipe médica e lhe deu plenos poderes. No começo do século 20 e da República brasileira, também não existia um Ministério da Saúde, pois o novo regime havia federalizado e dado autonomia aos estados. Essa foi, portanto, a primeira tentativa de convocar a ação de médicos para atuarem na “sanitarização do Brasil”. O nome que se deu ao projeto era ao mesmo tempo pomposo e, de certa maneira, preconceituoso: dizia o presidente que era preciso “regenerar” o Brasil — termo que vem do latim e indica a ideia de “formar de novo”, “dar nova vida”, assim como alude à ação do organismo que tem a capacidade de “regenerar” as células. O ambicioso programa seria aplicado na reforma da malha urbana — liderada por Pereira Passos, na reforma do Porto do Rio de Janeiro, e no projeto que previa, justamente, sanear a capital. Por isso, guardava jeito e vocabulário saído da biologia. Coincidia, portanto, com as metas de um pesquisador do calibre de Oswaldo Cruz, que aceitou o convite e logo assumiu a posição de Diretor-Geral de Saúde Pública.

A missão foi considerada vitoriosa, com os cientistas controlando a febre amarela e a peste bubônica, por meio de medidas que visavam erradicar ratos e mosquitos hospedeiros da doença, e pela aplicação de uma vacina que acabaria com o pesadelo da varíola. O problema não era, portanto, de objetivo, mas de método. Como é que se impõe uma vacinação obrigatória — e que estabelecia como necessário o comprovante para realizar matrículas em escolas, viajar e até se alistar nas Forças Armadas — sem conversar com a população afetada? Não é o caso de personalizar a culpa, mas de anotar como o autoritarismo é uma linguagem no Brasil, que nem a República tinha chance de dirimir.

Além do mais, o conceito de “regeneração” era também, à sua maneira, autoritário; implicava esquecer do passado, obliterar a pobreza e a desigualdade brasileiras, e fazer tudo “começar de novo”, por decreto.

Sabemos que essas operações higienistas muitas vezes levam à reação, sobretudo quando a população se sente ignorada. E foi isso que aconteceu: entre 10 e 16 de novembro de 1904, os cariocas foram às ruas reclamar contra as medidas sanitárias. O Rio de Janeiro ferveu: ônibus destruídos, barricadas foram levantadas nas ruas, prédios acabaram vandalizados, agentes sanitários atacados e assim vamos. Era a Revolta da Vacina, a primeira da República e do pós-abolição, com a população pobre, e majoritariamente negra, reclamando por seus direitos. Uma República que expulsara os negros, muitos deles ex-escravizados ou libertos, para as suas periferias, para os morros que circundam a cidade, em ambientes nos quais faltava todo tipo de equipamento urbano e estrutural.

Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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